Descrição de chapéu Flip

Mundo vai acabar quando robôs comerem hambúrguer, diz cientista Sidarta Ribeiro

Autor de livro sobre sonhos animou público na Flip ao traduzir temas complexos da psicanálise à evolução

Thiago Amâncio
PARATY (RJ)

Sonhos funcionam como uma expectativa do futuro e, se não sonhamos, não conseguimos nos programar para tempestades no horizonte. Mas no Ocidente já quase não se sonha —e isso pode explicar boa parte dos problemas contemporâneos.

É o que defendeu o neurocientista Sidarta Ribeiro, em apresentação mediada pelo jornalista Reinaldo José Lopes neste sábado (13), na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip: “A gente precisa urgentemente recobrar a capacidade de prever o futuro".

“Do paleolítico até o ano 1500, a gente teve o sonho no centro da vida social, no centro da vida política. E aí a gente resolveu tirar o sonho de cena, no Ocidente”, afirmou o autor de “O Oráculo da Noite”. “Hoje em dia, tá todo mundo nessa de não sonha, não lembra que sonha e não dorme direito.”

Sidarta Ribeiro, durante a mesa 18 - Massacará, como parte da Flip 2019, em Paraty - Eduardo Anizelli/ Folhapress

“Será que os grandes problemas do planeta não tem justamente a ver com a nossa incapacidade de simular o que está acontecendo no futuro, o que está vindo, o desastre que se avizinha?”, afirmou ele.

A mesa, originalmente, traria o também neurocientista Stuart Firestein, que precisou cancelar sua vinda ao Brasil por problemas de saúde. Ribeiro, que foi chamado no começo do mês para substituir o americano, não desanimou o público. Com a plateia cativada pela sua oratória, o pesquisador traduziu temas complexos da filosofia, psicanálise, evolução e neurociência.

Pesquisador do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Ribeiro apresentou seu novo livro, traçando um histórico que passou pela formação da Terra, há 4 bilhões de anos; surgimento dos primeiros seres unicelulares, há 580 milhões de anos (de onde vieram os primeiros neurotransmissores); chegada dos insetos, há 400 milhões de anos (com suas capacidades de dormir e de acumular sono do dia anterior) e o surgimento dos primeiros mamíferos, com capacidade de sono REM e que também faziam brincadeiras uns com os outros —”jogar é sonhar acordado”, disse. 

Na contemporaneidade, Ribeiro falou sobre como as telas de computadores e celulares nos atrapalham ao dormir. “Do mesmo jeito que a gente é capaz de expropriar a terra e as pessoas, a gente expropria a si mesmo, a gente tira o próprio sono. E isso gera uma série de doenças, diabetes, depressão e eventualmente o Alzheimer”, afirmou.

Se é preciso recuperar a capacidade de prever o futuro, Ribeiro já dá alguns palpites (não muito motivadores): a possibilidade de a robotização excessiva do mundo gerar uma massa de miseráveis.

“Os robôs vão fazer o trabalho de todo mundo. A gente tá a um passo de ficar muito bem e tá a um passo de ficar muito mal, porque os empregos vão desaparecer. Se a gente permitir que os robôs façam o trabalho das pessoas e elas fiquem sem trabalho e sem dinheiro, acabou, gente. Na hora que o primeiro robô comer o primeiro hambúrguer e começar a consumir, acabou. A gente é carta fora do baralho. E tá mais perto do que a gente pensa.”

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