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Não é permitido à mulher tomar decisões da qual se arrependa, diz Sheila Heti

Em 'Maternidade', escritora canadense aborda dúvida sobre ter filhos

Paraty (RJ)

Ser ou não ser mãe? Essa é a questão da protagonista de "Maternidade", livro de mais de 300 páginas da canadense Sheila Heti. Uma pergunta essencial ou banal para tantas páginas? 

"Não há nenhum livro que eu tenha lido que traga um personagem se perguntando isso pela obra toda. Se você não vê algo na literatura, acha que não tem valor", diz Heti em Paraty enquanto descobre o sabor de um bombom Sonho de Valsa em sua primeira viagem ao Brasil.

A escritora canadense Sheila Heti, autora de 'Maternidade', sentada com as mãos apoiadas em banco; ao fundo, plantas do jardim
A escritora canadense Sheila Heti, autora de 'Maternidade', discute o quão banal pode ser o questionamento sobre ter filhos para mulher da atualidade - Mathilde Missioneiro/Folhapress

"Minha dúvida era: posso dar valor a essa questão? Creio que parte do que dá valor a uma questão é ela ser compartilhada", continua ela, embalando a metade do chocolate. "Comi doce o dia todo."

Em "Maternidade" (Companhia das Letras, 312 págs., R$ 59,90), uma mulher de 36 anos busca respostas quanto a dever ou não ter um filho. Ela, que já fez um aborto, vive com o namorado, que tem uma filha de outra relação. A questão é apresentada como uma tomada de consciência, um enfrentamento que enfim ela se dispõe a fazer enquanto ainda é fértil.

Prestes a completar 37 anos, escreve: "Se eu quero ou não ter filhos é um segredo que escondo de mim mesma". A narradora pensa até mesmo em congelar seus óvulos, ainda saudáveis, como uma maneira de postergar sua indecisão.

A autora da obra e sua personagem principal se misturam. Heti está em Paraty com seu namorado e sua enteada.

"Eu tinha 32 anos quando comecei a escrever esse livro, e essa era a maior pergunta que havia na minha vida. Era uma questão que me gerava muita frustração e irritação. Eu só queria afastá-la o máximo possível e pensar em coisas mais importantes", diz.

Mas a pergunta voltava todo dia. "Então decidi fazer algo com esse problema irritante. Em parte eu não queria olhar para isso porque me parecia banal, mas o que pode ser menos banal do que saber se você vai fazer alguém viver ou não?", indaga. 

Como a personagem vai percebendo ao longo de seus questionamentos —o livro termina quando ela chega aos 40 anos—, as respostas podem não ser tão simples assim. E, não importa qual decisão seja tomada, ter ou não um filho, sempre gerará perdas.

 

"Não sei como é no Brasil", diz Heti a esta repórter, também na casa dos 30, "mas na América do Norte se deve tomar decisões que só levem ao ganho, não se deve tomar decisões que envolvam perdas. A vida não é assim."

Na Alemanha, um jornalista perguntou a Heti, como se perguntasse à personagem: "E se você se arrepender de não ter tido filhos?".

"A questão é sempre essa", diz. "E daí? Arrepender-se não significa que se esteja morto. Temos milhares de arrependimentos." 

Segundo a autora, e ela expressa isso numa das reflexões do livro, as noções de arrependimento e de fracasso quanto a não ter tido filhos recaem mais sobre as mulheres. Para os homens sem filhos, é como se tivessem escapado de algo ruim. 

"A pior coisa que uma mulher pode fazer é tomar uma decisão da qual ela se arrependa. Por que temos que viver vidas perfeitas? Por que viver sem erros se é assim a experiência humana? Mas as mulheres não têm permissão para isso", diz, mexendo com curiosidade numa das mexericas da fruteira da mesa.

O que se desenrola a partir da dúvida da narradora, também ela uma escritora, é uma série de reflexões sobre a vida e o tempo. Com a ajuda de perguntas feitas a três moedas, numa técnica de adivinhação que vem da China, ela se guia pelo resultado dos lançamentos, isto é, se dizem sim ou não a uma pergunta feita.

"Esse era um jeito de me fazer pensar de formas diferentes. As moedas ajudam a mudar os caminhos do pensamento", explica Heti. 

Era também um jeito de entrevistar a si mesma. "Se sim ou não, minha tarefa era sempre fazer outra pergunta." Além disso, diz ela, foi uma maneira de pôr diálogo num livro que é, basicamente, um solilóquio.

A fortuna aparece também em uma vidente que a personagem encontra em Nova York e que será importante para que compreenda a relação com sua mãe, uma médica que dedicou a vida à carreira.

Heti explica que recorrer às moedas, que vão sumindo conforme o livro avança, e recorrer à vidente são evidências do quão perdida a personagem está. 

"Ela está desesperada por uma nova história. Ela não tem uma história que a deixe à vontade com a decisão de não ter filhos, ela não quer viver essa de que 'você não vai ter um filho e você vai se arrepender'", afirma.

Sheila Heti
A autora participa da mesa 'Bom Conselho', nesta quinta-feira (11), às 17h, na Flip 2019

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