Descrição de chapéu
Flip

Tipo de protesto contra Glenn não é monopólio da direita ou da esquerda

Ato contra jornalista na Flip convida a debate sobre liberdade de expressão

Paraty

Na sexta (12), dezenas de manifestantes fizeram de tudo para atrapalhar a fala do jornalista americano Glenn Greenwald na Flipei, casa parceira da Flip. 

Tocaram o hino nacional no talo e soltaram fogos de artifício. Com o fuzuê todo, de certa forma conseguiram o que queriam: ficou bem difícil escutar o que tinha a dizer o fundador do The Intercept, site que revelou diálogos que comprometeram o herói deles, o ministro Sérgio Moro.

Isso é um absurdo, é antidemocrático, um tapa na cara da liberdade de expressão, a esquerda se apressou em dizer. Tal escracho, contudo, não é monopólio da direita.

Em 2013, a blogueira Yoani Sánchez, uma das mais famosas opositoras do regime cubano, não conseguiu continuar sua palestra numa livraria em São Paulo. Ativistas se infiltraram no auditório e gritaram palavras de ordem como "agente da CIA" e "Yoani mercenária". A conversa acabou indo para o espaço.

Ela já tinha sido alvo de protestos em Salvador, onde disse àqueles que berravam com ela que só o fato de poderem fazê-lo era um "banho de democracia". 

Mudou o tom após o furdunço paulista. "Os insultos, foi como se tivessem sido orquestrados por terroristas. Sou uma pessoa pacífica e trabalho com o verbo, com a fala, não tinha por que tanta agressividade."

Claro que direitistas não são nenhum calouro na arte de silenciar alguém no grito. Basta lembrar os atos que tentaram inviabilizar, dois anos atrás, um seminário da filósofa Judith Butler, referência nos estudos de gênero e teoria queer. 

Manifestantes chegaram a queimar um boneco caracterizado de bruxa. Tinha o rosto de Butler.

Quando dói no calo deles, os dois lados correm para acusações mútuas de intolerância. No caso de ​Glenn, alguns argumentos foram levantados para pintar o outro lado de fascista. Falou-se, por exemplo, em uso da violência, pois os rojões poderiam atingir alguém.

Não dá para cravar que eles foram direcionados à Flipei. Uma parcela da audiência se sentiu intimidada com o foguetório, outra disse que rasgavam o horizonte para fazer barulho mesmo, mas não tinham o barco onde o jornalista estava na mira. 

Se algo ocorresse, obviamente a pessoa deveria ser criminalmente responsabilizada, pois assumiu o risco ao acender o pavio. Como, aliás, estão sendo os dois rapazes que soltaram o artefato explosivo que matou o cinegrafista da Band Santiago Andrade, num ato de 2014 contra o aumento da passagem de ônibus. 

Fora o excesso de decibéis, a manifestação não foi brutamontes, não em força física. Assustador, isso sim, foi o tom de ameaça de um de seus participantes horas antes, quando a Folha o interpelou: "A Folha de S.Paulo distorce tudo. Pode botar aí que eu vou matar esse americano, eu, cidadão paratiense. Vou meter uma bala nesse cara. Eu sei que você está gravando".

Mas julgar um grupo todo pela fala de um indivíduo, mal comparando, seria como dizer que todos os que protestaram pacificamente em 2013 poderiam ser reduzidos ao punhado de black blocs que partiram para o vandalismo naquele ano.

A democracia não é só posta à prova quando você tem direito de criticar o que vê como abjeto para a própria sobrevivência desse sistema. E quando aquilo que você vê como ameaça aos valores que lhes são mais caros quer fazer o mesmo? É complicado dizer para o outro "é, mas sua demanda é errada, a minha é certa", e isso serve para os dois polos.

Posso discordar da interrupção da fala do Glenn, por enxergar valor na divulgação das conversas que mostram um Moro parcial enquanto juiz —imagina se bolsonaristas descobrem que o magistrado responsável pelo caso Flávio Bolsonaro ficou de trelelê com o Ministério Público?

Mas não dá para ter dois pesos e duas medidas. A esquerda não titubearia em protestar contra alguém que visse como ícone do lado de lá. Glenn é isso para esse pessoal. Parte do jogo, desde que não descambe para a violência.

Em tempo: ainda dá para complexificar mais esse debate. Afinal de contas, a liberdade de expressão é um valor soberano? Todos devem ter preservado seu direito de falar o que quiser, e qualquer grupo que ouse protestar contra isso dá sinais de incapacidade de conviver com opiniões diversas?

Imaginem se, lá atrás, chamassem um deputado para debater direitos LGBTI: Jair Bolsonaro, conhecido por discursos abertamente homofóbicos. Ou uma conferência sobre direitos humanos que tivesse como convidado principal Nicolás Maduro.

Vai ter mais rojão aí do que no Réveillon de Copacabana.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.