Descrição de chapéu Flip Livros

Seria mentira dizer que não quero excitar o leitor, diz autora sobre cenas de sexo

A americana Carmen Maria Machado debateu com a cearense Jarid Arraes, na Flip

Patrícia Campos Mello
PARATY (RJ)

Duas escritoras de universos completamente diferentes, que comungam do objetivo de dar voz a mulheres e seus traumas e prazeres, dividiram a mesa Vila Nova da Rainha na tarde deste sábado (13) na Flip.

A cearense Jarid Arraes nasceu no sertão, em Juazeiro do Norte, ficou conhecida por seus cordéis sobre heroínas negras e lançou seu primeiro livro de contos, “Redemoinho em Dia Quente”. Já a americana Carmen Maria Machado , autora de “O Corpo Dela e Outras Farras”, vem de uma pequena cidade na Pensilvânia, e escreve contos que misturam fantasia, ficção científica e terror com perspectiva feminista e LGBT.

“Cresci no sertão, revoltada contra minha terra”, disse Arraes, na mesa mediada pela jornalista Adriana Couto, apresentadora da TV Cultura. “Eu não me sentia encaixada; sabe aquela matéria em que a Xuxa disse ‘no Brasil, não há homem para mim’? Pois eu pensava: 'no Cariri não tem espaço para mim'.”

Carmen Maria Machado e Jarid Arraes, durante a mesa 17 - Vila Nova da Rainha, como parte da Flip 2019, em Paraty - Folhapress

Ao mesmo tempo, foi sua infância no sertão, lendo os cordéis de seu pai e seu avô, que permitiu que se tornasse escritora, disse Arraes.

Já para Machado, foi o tédio que a levou a escrever. “Não tinha nada lá [em sua cidade, Allentown], era muito entediante, então eu precisava fazer as coisas acontecerem, inventar histórias, escrever.”

As duas optaram pelo formato mais curto, dos contos. Machado porque, segundo ela, um conto curto é o espaço perfeito para experimentações e trafegar entre gêneros. “E fico entediada facilmente, então não sei se conseguiria escrever um romance”, disse.

Para Arraes, os contos permitem que uma multiplicidade de vozes femininas se expressem, uma diferente da outra.

“Queria mostrar o Cariri pelos olhos das mulheres do Cariri que sofrem muitos tipos de silenciamentos. Mas não queria repetir os estereótipos do sertão, a imagem do chão rachado, com crânio da vaca e casa de taipa.”

Nos contos, há desde uma religiosa que experimenta comprimidos alucinógenos e vai encontrar o padre Cícero até uma transexual que sonha em conhecer o apresentador Silvio Santos.

As duas não fogem de temas que podem ser difíceis de abordar. No caso de Arraes, estupro, abuso sexual, homofobia.

“Cresci assistindo a mulheres sofrendo traumas e sofri meus próprios traumas; mesmo com essa passeata de traumas, continuamos vivendo, morando em uma casa com telhado quebrando”, disse.

“Escrevo sobre violência, abuso sexual, homofobia, depressão e suicídio. Eu gosto desses temas não porque sejam adoráveis, mas porque todos seres humanos têm isso em comum, o trauma está sempre presente na vida da gente.”

Segundo a escritora, a literatura é política porque pode retratar as mulheres não como vítimas incapazes, mas como pessoas que seguem com suas vidas, ainda que seus corpos tenham sido violentados.

Arraes contou que sua grande inspiração foi a escritora e ativista negra Conceição Evaristo.

“Não achava que pudesse ser escritora, pois nunca havia visto alguém parecido comigo, com a minha aparência física ou a minha origem, escrevendo”, disse. “Aí descobri Conceição Evaristo e pensei: poxa, talvez eu possa compartilhar o que escrevo, eu não estou condenada ao silêncio.”

Machado gosta de escrever cenas de sexo, sempre pelo ponto de vista da mulher, porque normalmente eles são escritos por homens heterossexuais. “Nos últimos dez anos, foram lançados inúmeros filmes com sexo entre mulheres, mas sempre escritos e dirigidos por homens heterossexuais, e eu assisto a esses filmes e tenho uma sensação de estrangeira e distanciamento.”

 Adriana Couto afirmou que ficou “com tesão” após ler o livro de Machado, e disse que a autora descreve maravilhosamente cenas de sexo. “Se dissesse que não tento excitar o leitor com o que escrevo, estaria mentindo”, disse Machado. 

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