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Artes Cênicas

Vendidas como novidade, reestreias na dança são alternativa a temporadas curtas

Em 'Biblioteca de Babel', exibida no Theatro Munipal, Ismael Ivo revisitou obra de 2012

Iara Biderman

Há algo de #tbt (quinta-feira do retorno) e #fbf (flashback de sexta-feira) na dança. Como nas hashtags das redes sociais, recuperar memórias do passado, às vezes bem recentes, tem seu charme e suas razões de ser.

Para as companhias de dança mais longevas, é uma forma de manter o repertório e ampliar o alcance público de suas criações. Com as temporadas cada vez mais curtas, as reestreias aumentam as chances de os espectadores acompanharem o que está sendo feito na dança contemporânea nacional.

Como a visibilidade das companhias também depende de oferecer algo novo para o público, é comum o “vale a pena ver de novo” ser vendido com roupa de novidade.

É o que acontece com “Biblioteca de Babel”, que o Balé da Cidade de São Paulo apresentou ao longo do feriado de Corpus Christi no Theatro Municipal, concebido por Ismael Ivo (diretor da companhia) e pelo cenógrafo Marcel Kaskeline. 

Os bailarinos do BCSP revisitam a “Biblioteca del Corpo”, criada pelos mesmos artistas em 2012 para a Bienal de Dança de Veneza e apresentada, também naquele ano, no Sesc Pinheiros, em São Paulo.

Na atual versão, a coreografia ganha o nome de sua fonte original de inspiração, o conto de Jorge Luis Borges publicado em 1944.

Ivo vê na confusão de línguas da história bíblica da torre de Babel um retrato do Brasil atual. “Estamos vivendo um momento de polarização e confusão. Precisamos reaprender a ler ‘a língua’ dos outros e tentar dialogar”, diz.

No espetáculo anterior do Balé da Cidade, “Sagração da Primavera”, o diretor fez desabar uma chuva de pétalas de rosas sobre o palco. Neste, há uma tempestade de estilhaços de janelas quebradas. Os bailarinos do Municipal estão sempre pisando em cacos de vidro (cenográficos, obviamente).

Apesar de estar revisitando sua própria obra, Ivo é ambíguo em relação a remontagens de repertório. “O Balé da Cidade tem 50 anos e obras de qualidade excepcional, mas paramos de fazer um ‘pot-pourri’ de coreografias do repertório”, afirma.

Isso não é problema na visão de Alex Neoral, diretor da Focus Cia de Dança, do Rio. Neoral trouxe para uma curtíssima temporada em São Paulo (no Sesc Pompeia), “Still Reich”, uma combinação de quatro coreografias do repertório da companhia inspiradas pelas músicas do americano Steve Reich.

São duas peças de 2008 (“Pathways” e “Trilhas”) e duas do ano passado (“Keta” e “Woods Steps”). Neoral diz não estar revisitando as obras, apesar de a costura de trechos coreográficos feitos em momentos diferentes ter um lado de recriação importante para o espetáculo.

Com o combo, o diretor mantém o repertório atualizado e os bailarinos afiados enquanto são planejadas novas criações. Uma das poucas companhias de dança que continuam com patrocínio da Petrobras, a Focus tem um certo respaldo para a circulação de repertório e produção de inéditos. 

No caso de “Still Reich”, as coreografias são pouco conhecidas pelo público paulistano. Só uma parte delas passou pela cidade, e mesmo assim em temporada relâmpago.

Independentes entre si, as danças têm em comum as experimentações, repetições e acumulações de sons das composições de Reich refletidas nos movimentos dos bailarinos da Focus.

A moda do flashback atingiu também um revival do passado do quase cinquentenário Ballet Stagium. Criada em 1971, a companhia paulistana reapresentou, também no longo fim de semana do feriado, uma das obras-símbolos de sua trajetória, “Kuarup”, de 1977, junto com “Coisas do Brasil”, de 1979. As remontagens preservam um momento importante da dança de São Paulo e da história do país.

Revisitar a própria obra ou preservar sua memória é parte da criação artística e, para a dança, uma forma de mantê-la viva. É interessante deixar esse contexto claro para um público em geral pouco familiarizado com a linguagem.

Nem só de estreias se alimentam as descobertas de algo novo e inesperado e é bom saber quando isso acontece em um espetáculo em cartaz que não pode ser chamado com exatidão de inédito. 

A descoberta “é uma surpresa que nos dá tanto prazer como o que temos ao descobrir uma origem, uma relação, uma afinidade”, escreveu Italo Calvino no ensaio “Porque ler os clássicos”. Vale tanto para a literatura, tema do ensaísta e escritor italiano, quanto para a dança.

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