Vitor Ramil se desloca do pampa para a metrópole paulista, com blues e samba

Em seu novo show, gaúcho musicou poemas da escritora Angélica Freitas

Paula Sperb
Porto Alegre

Compor, apresentar ao público e só depois lançar um álbum é uma sequência de trabalho que o músico Vitor Ramil já experimentou quando musicou poemas do argentino Jorge Luís Borges e do gaúcho João da Cunha Vargas para o que se tornou, apenas anos mais tarde, o álbum “Délibáb” (2010).

Depois vieram os elaborados discos “Foi no Mês que Vem” (2013) e “Campos Neutrais” (2017), gravados e depois apresentados. Agora, Ramil voltou ao método de tocar músicas inéditas para a plateia para posteriormente registrá-las. 

No início de junho, ele subiu ao palco do tradicional Theatro São Pedro, na capital gaúcha, para três apresentações do seu novo show, “Avenida Angélica”, que deve ser transformado em álbum futuramente. 

As letras das canções são poemas da escritora Angélica Freitas, dos livros “Rilke Shake” (Cosac Naify, 2007) e “Um Útero é do Tamanho de um Punho” (Cosac Naify, 2013). Ramil e Freitas, nascidos em Pelotas, no Rio Grande do Sul, eram vizinhos e trabalharam juntos no projeto. 

Os versos da poeta deram o tom e a paisagem das novas composições. Ramil se desloca do pampa, marcante nos últimos trabalhos, para a grande metrópole, materializada em São Paulo. 

“A poesia dela está marcada pela cidade de São Paulo, embora tenha algumas outras referências. Quando falo de campos neutrais, da fronteira, da Argentina e do Uruguai, não falo para marcar território, é natural para mim. Acho bom esse deslocamento, coloca minha canção em outro lugar”, disse Ramil. 

A música que abre o espetáculo é “Ringues Polifônicos”, cujos versos dizem “entre paulistas voadores e portadores esvoaçados/ de baseados no bolso das calças jeans/ entre o canteiro central da Paulista e a vista do vão do Masp”, dá uma amostra do ar contemporâneo do show. A apresentação é acompanhada por vídeos repletos de lirismo, mas pouco literais, feitos pela artista Isabel Ramil, filha do músico.

“São poemas muito ligados ao real, muito concretos. Dizem tanto dos sentimentos, como das coisas. Vão da pomada Hipoglós à pasta Colgate”, comenta o músico.

Diante das letras, Ramil compôs ritmos incomuns em sua obra, como blues e samba. “Dificilmente comporia assim por mim mesmo, mas a voz da Angélica fez esse chamado e eu atendi. Abre novas portas. É como um artista plástico que resolve usar ferro ou mármore depois de uma vida usando outros materiais”, explica. 

Ramil se levanta e muda para um banco que lembra o interior de um ônibus. Ali, batucando na estrutura, canta “mulher de malandro/ malandra é”. “Parece um samba que já está composto há muito tempo. A gente se perguntava se já não existia, porque foi muito espontâneo”, disse. 

As demais canções são tocadas no violão, que exemplifica o estilo perfeccionista e rigoroso de Ramil, já comparado a João Gilberto e Caetano Veloso. Do primeiro, embora toque de modo diferente, reconhece que aprendeu o “controle da voz” e a não tocar o violão de “modo aleatório”. De Caetano (eles gravaram juntos a música “Milonga de los Morenos”, do disco "Délibáb"), recebeu a influência do lirismo das letras, o “olhar para os antigos” e o modo de “teorizar” sobre a música. 

As poesias de Angélica Freitas não devem demorar a virar álbum, garante Ramil. As primeiras apresentações já serviram para a composição de novas músicas. “Cheguei de viagem e já comecei a trabalhar imediatamente em outro poema dela. Foi como abrir um mapa em cima da mesa. Enxerguei mais claramente os caminhos que tenho para seguir”, contou.

O músico, aliás, atraiu uma plateia consciente de que não escutaria um repertório familiar, mas confiante no que Ramil tinha para revelar. Em setembro, será a vez de São Paulo, quando “Avenida Angélica” será apresentado aos paulistanos.

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