Artistas lançam escola nômade de cultura na periferia de São Paulo

Nove nomes da cena contemporânea irão dar aulas e cursos na Cidade Tiradentes

Clara Balbi
São Paulo

Uma escola, um projeto, uma obra. Para a artista paulista Renata Lucas, uma palavra não basta para definir a ali, arte livre itinerante, projeto que ela outros oito nomes da cena contemporânea lançam nesta terça-feira (27), na galeria Carbono.

É lá que, com a venda de 30 caixas com trabalhos assinados pelos artistas à frente da iniciativa —além de Lucas, também participam Ana Prata, André Komatsu, Bruno Dunley, Ding Musa, Lucia Koch, Rodrigo Andrade, Sara Ramo e Wagner Morales—, eles esperam atingir a soma necessária para sustentar ao menos o primeiro semestre de atividades do projeto.

Nesse primeiro momento, essa espécie de escola nômade vai ter sede na Cidade Tiradentes, distrito do extremo leste de São Paulo. Por isso, essa primeira fase recebeu o nome de ali: leste.

Apesar de o lançamento oficial só acontecer agora, o grupo, que ainda conta com um cientista social, frequenta a região desde o fim do ano passado. Em encontros com outros coletivos de arte e cultura, interessados em geral e referências locais (caso de Tilê, dono de um bar com o seu nome, um dos mais citados pelos artistas), eles buscaram construir laços com a comunidade da Cidade Tiradentes ao mesmo tempo em que mapearam a rotina dos que têm vontade de participar dos cursos, ações e eventos que ali passarão a ocorrer a partir da próxima semana.

O projeto, diz Lucas, nasceu de encontros do grupo na época das eleições no ano passado. “Ficou claro que estavam acontecendo coisas que não estávamos cientes, como as fake news, a criação de teorias conspiratórias”, afirma a artista. “Acho que o sentimento de todo mundo era como intervir nessa realidade e proteger a educação, a ciência, a cultura, tudo isso que ninguém imaginava que poderia estar ameaçado dessa forma.”

Com um trabalho voltado para intervenções no espaço público, Lucas conta que tem ido duas vezes por semana para a Vila Iolanda, bairro na Cidade Tiradentes. 

Lá passeia com os alunos, com quem discute as noções de público e privado, mostra trabalhos de artistas do passado e nomes atuais e negocia com prédios da região a instalação da obra “aqui”, que ela já apresentou na galeria Jaqueline Martins e leva à fundação Dia, em Nova York, em setembro. O trabalho reproduz a palavra “aqui” em fachadas de construções com a ajuda de um projetor, de maneira que ela só pode ser lida de um ponto de vista específico.

Depois, será a vez de Andrade, Dunley e Prata darem aulas de história da arte e desenho em um curso de contato e formação. Professores, participantes do projeto e coletivos do bairro também irão se juntar à turma para trocar experiências e ideias em uma festa, chamada de Encontrão. 

Até o final do ano, eles ainda querem ajudar os moradores da Cidade Tiradentes a registrar e a documentar a história do bairro, com a implementação de um centro de memória na região. “Queríamos muito conseguir trocar”, diz Dunley. “As artes visuais têm pouca política de formação, e você não vê a arte contemporânea rodar a cidade para além do centro e da zona oeste, não existe essa difusão.”

Embora a ideia seja fincar raízes na Cidade Tiradentes por ao menos dois anos, período em que o grupo espera capacitar pessoas para ajudarem a tocar o projeto, depois eles desejam se expandir por outras regiões da cidade.

Lançamento da ali: leste

  • Quando Ter. (27), às 19h
  • Onde Galeria Carbono - r. Joaquim Antunes, 59, Jardim Paulistano, São Paulo
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