'Bacurau' estreia em Gramado sob aplausos e gritos contra a censura

Filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles levou o prêmio do júri no Festival de Cannes, em maio

Paula Sperb
Gramado (RS)

A primeira exibição de “Bacurau” no Brasil teve gritos contra censura, elogio ao Nordeste e pedido de valorização da cultura. A sessão foi na noite de sexta (16), no primeiro dia do 47º Festival de Gramado. O longa entra em cartaz na quinta (29).

“Somos profissionais da cultura e exigimos respeito”, disse o diretor Kleber Mendonça Filho, antes da exibição. Da plateia, se ouviu manifestações contra a censura.

‘Bacurau’ é um filme do Nordeste. Vim pensando em como se tornou importante marcar essa relação. O Brasil é grande e temos filmes de todas regiões . Através das artes, conseguimos proporcionar essa integração. Isso é digno de nota agora”, disse Juliano Dornelles, que dirigiu o filme com Mendonça Filho.

O filme, um “western futurista do sertão”, que venceu o prêmio do júri no Festival de Cannes, não concorre na mostra competitiva de Gramado.

“Espero que esse filme seja uma inspiração para que as pessoas repensem suas posições, para que a gente tenha união, para que as crianças desse país possam cumprir seu futuro”, disse Sonia Braga, no tapete vermelho, ao gritos de “eu te amo”, vindos do público. Na trama do longa, as crianças do povoado fictício de Bacurau correm perigo.

O filme se passa numa cidade no interior de Pernambuco, num futuro não tão distante, povoado por notícias de execuções públicas no vale do Anhangabaú, em São Paulo. 

Remédios tarja preta para acalmar a população são distribuídos de graça, diz Domingas, a médica do povoado interpretada por Braga. No entorno, há sinais de que a tranquilidade de Bacurau logo deverá ser perturbada.

A cidadezinha desaparece do mapa, e a população passa a ser atacada por pistoleiros americanos, que ganham pontos conforme matam os locais. Como reação, os habitantes de Bacurau se organizam no melhor estilo western. 

A cada cena em que alguém do povoado conseguia evitar mais mortes de moradores, o público no cinema reagia em apoio, com gritos de “uhu”.

“Desde que a gente começou a filmar em Barras, no Rio Grande do Norte, meu grande desejo é que houvesse uma première lá [na cidade] e vai ter. Que as pessoas que fizeram o filme lá possam participar”, afirmou Sonia Braga.

Grande parte do elenco, com a atriz à frente, e os diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles estiveram presentes na estreia nacional, em Gramado.

Essa é a segunda parceria entre Mendonça Filho e Braga. Há três anos, eles trabalharam em “Aquarius”, que também abriu o festival gaúcho depois de ser exibido em Cannes —na ocasião, aliás, sob um protesto anti-impeachment encampado pela equipe do longa. 

Naquele ano, Sonia Braga foi homenageada com o prêmio Oscarito em Gramado. Neste ano, a distinção será dada ao ator Lázaro Ramos.

A exibição de “Bacurau” ocorreu um dia depois de Jair Bolsonaro voltar a criar atrito com o cinema nacional. Em sua transmissão semanal pelo Facebook, o presidente criticou produções que têm a sexualidade como tema. Ele afirmou ainda que teria “degolado tudo” ao fazer referência aos  cargos de diretoria da Ancine.

A primeira edição do Festival de Gramado foi realizada ainda durante a ditadura militar, em 1973. O filme premiado foi “Toda Nudez Será Castigada”, dirigido por Arnaldo Jabor, que conta a história de um viúvo que se casa com uma prostituta. O longa chegou a ser censurado pelo regime.

“Bacurau” foi selecionado para o Festival de Toronto e representará o Brasil no Goya, da Espanha, disputando na vaga para concorrer a melhor filme ibero-americano.

A jornalista viajou a convite do festival

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