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Livros

Catatau analisa a produção de Dostoiévski sem ignorar sua vida cômica e trágica

Livro de cerca de 1.200 páginas percorre vida de autor em meio a Rússia sob mudança

Irineu Franco Perpetuo

Dostoiévski

  • Preço R$ 159,90 (1.184 págs.)
  • Autor Joseph Frank (tradução: Pedro Maia Soares)
  • Editora Cia das Letras

Epilepsia, fuzilamento cancelado no último instante, exílio siberiano, viuvez, morte de filhos, viagens pela Europa, luta contra dívidas, envolvimento em conspirações políticas, paixão descontrolada pelo jogo, intimidade com os altos círculos do poder —Fiódor Dostoiévski (1821-1881) nem precisava ter sido o escritor que foi para sua vida oferecer material suculento aos biógrafos.

Dostoiévski não se tornou o literato russo mais conhecido fora de seu país por acaso. Legou-nos obras-primas como “Os Irmãos Karamázov”, “Crime e Castigo”, “O Idiota”, “Memórias do Subsolo” —livros produzidos em meio às modificações vertiginosas da Rússia do século 19, em diálogo, competição e conflito com gigantes literários da estatura de Tolstói e Turguêniev.

No premiadíssimo “Dostoiévski - Um Escritor e seu Tempo”, o americano Joseph Frank (1918-2013) logrou um raro equilíbrio entre narrar a existência movimentada do escritor, analisar profundamente todas as suas obras e, de quebra, traçar um panorama rico da realidade russa de sua época. Leitura saborosa e referência fundamental, a biografia do autor chega agora ao Brasil em versão resumida.

Fruto de quase três décadas de trabalho, de 1976 a 2002, a monumental obra de Frank ocupa originalmente cinco volumes —publicados no Brasil pela Edusp. A edição atual (um catatau de 1.200 páginas, mais grosso do que a maioria dos romances dostoievskianos) corresponde a cerca de um terço do original.

Mas o trabalho de condensação foi extremamente bem feito. Em nenhum momento o leitor sente que está lendo um resumo. Foi mantido o equilíbrio entre fatos da vida e estudo da obra que é a força principal do texto de Frank. Difícil acusar superficialidade em um volume que dedica três capítulos (mais de 70 páginas) apenas à análise de “Os Irmãos Karamázov”. E, no caso da edição da Companhia das Letras, o tradutor é um só, evitando as diferenças estilísticas da versão da Edusp, em que os volumes foram traduzidos por mais de uma pessoa. 

Mobilizando vastas referências bibliográficas, e combinando um profundo conhecimento da obra do escritor e da vida intelectual russa do século 19, Frank consegue avaliar e situar a produção dostoievskiana sem negligenciar os detalhes cômicos e trágicos de sua vida privada. Mapeia suas influências literárias, de Púchkin e Gógol a Schiller e Balzac, e aborda temas pouco tratados no Brasil, como o antissemitismo de Dostoiévski, que foi se tornando cada vez mais virulento com o passar dos anos, eclodindo de forma irrefreável nas páginas do “Diário de um Escritor”. 

Se a versão da Edusp continua sendo obrigatória para os estudiosos da literatura russa, o volume da Companhia das Letras pode servir perfeitamente para quem for interessado em Dostoiévski mas não tiver tempo —nem espaço na estante de casa— para encarar Frank na íntegra. Um bom aperitivo para o bicentenário de nascimento do escritor, a ser comemorado em 2021.

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