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Cinema

Com história de Cinderela, filme indiano fala de abismo social

'Retrato do Amor' oscila entre as faces social e individual, sem, no entanto, aproveitar suas possibilidades

Cássio Starling Carlos

Retrato do Amor

  • Quando Estreia nesta quinta (8)
  • Classificação 12 anos
  • Elenco Nawazuddin Siddiqui, Sanya Malhotra, Farrukh Jaffar
  • Produção Alemanha/Índia/EUA, 2019
  • Direção Ritesh Batra

A foto, no longa indiano “Retrato do Amor”, equivale ao pé de sapato na história de Cinderela. A imagem que uma jovem deixa para trás cria uma conexão e dá início à busca da princesa prometida. Um retratista pobretão entra no lugar do príncipe encantado. Já que a realidade nunca reproduz os contos de fadas, não se deve esperar um final feliz para esta fantasia romântica com sabor de curry. 

Rafi veio do interior e ganha a vida tirando fotos de visitantes em um ponto turístico de Mumbai. Miloni uma estudante aplicada, de outra classe social e seus pais investem para que ela faça um “bom casamento”.

O diretor e roteirista Ritesh Batra propõe, por meio dessas disparidades, registrar o abismo social indiano, evidenciar, além das diferenças, o estranhamento entre as castas.

Apesar de quase tudo os separar, Rafi e Miloni equiparam-se na situação que vivem. Ele precisa encontrar uma noiva para atender os desígnios da avó. A família da garota também faz manobras para que ela se aproxime de um jovem promissor.

A obediência aos costumes é reforçada pelo excesso de timidez, o pudor que impede Rafi e Miloni de demonstrarem o interesse que sentem um pelo outro.

O filme oscila entre estas duas faces, a social e a individual, sem, no entanto, aproveitar suas possibilidades. O retrato social não vai além da constatação de que há uma distância enorme entre as classes e que um lado desconhece as condições em que o outro vive. Mas isso serve somente como pano de fundo, de índice de autenticidade para a ficção.

Desse modo, o foco desloca-se para os personagens, aproxima-se de suas opacidades, acompanha seus devaneios. Há um certo encanto nesse impasse, que se reflete nos olhares retraídos, no que nunca é dito.

Tal escolha acarreta o problema de fazer a emoção depender demais dos atores, da capacidade deles de expressar sem falar. Enquanto Nawazuddin Siddiqui, que interpreta Rafi, é um ator com mais recursos, a jovem Sanya Malhotra no papel de Miloni esgota cedo seu repertório de signos de timidez.

Não seria justo, porém, responsabilizar o par de protagonistas pelas fragilidades de “Retrato do Amor”. O problema principal é o filme disfarçar na forma de não dito que no fundo não tem muito o que dizer.

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