Descrição de chapéu Artes Cênicas

Diretor que fez Shakespeare com pegada 'aqui e agora' rememora carreira

Livro de Ron Daniels abrange sua trajetória, um guia para encenar o dramaturgo e quatro traduções

Nelson de Sá
São Paulo

Há 60 anos, Paulo Francis, já violento crítico teatral do jornal Última Hora, escreveu sobre o jovem protagonista de “Sangue no Domingo”, adaptação de Walter George Durst para “Romeu e Julieta”, dirigida por Ziembinski, no Rio de Janeiro: “Romeu é bisonho e nada consegue expressar”.

Quem recorda a história, rindo, é o diretor Ron Daniels, então ainda Ronaldo Daniel, ator estreante da praia de Icaraí, em Niterói. Logo em seguida ele faria Caveirinha, o repórter policial de "Boca de Ouro", de Nelson Rodrigues, também dirigido por Ziembinski, e seria elogiado por Décio de Almeira Prado no jornal O Estado de S. Paulo.

E se tornaria nos anos seguintes um dos principais atores do Oficina, culminando com o Nil da montagem histórica de “Pequenos Burgueses”, de Górki, em 1963. Foi quando estudou a fundo “Shakespeare, Nosso Contemporâneo”, de Jan Kott. “Ainda tenho o livro, todo rabiscado pelo Zé Celso”, diz.

No fim daquele ano, viajou para passar alguns meses em Londres e, com o golpe de 1964 e os amigos do teatro escondidos na fazenda da família da atriz Célia Helena, foi adiando a passagem de volta —e nunca voltou.

Depois de alguns anos como o ator Ron Daniels, nome que adotou por lá, ele que é neto de britânicos e tem dupla nacionalidade, se estabeleceu como diretor na Royal Shakespeare Company (RSC). Trabalhou com atores célebres e ajudou a lançar novatos como Mark Rylance e Fiona Shaw, hoje dois dos maiores no Reino Unido.

O diretor Ron Daniels nos bastidores dos ensaios - Adriano Fagundes

Daniels, 77, mora há duas décadas no Brooklyn, em Nova York, de onde sai para trabalhos até no Japão. Ele lança agora “Encontros com Shakespeare”, que narra sua trajetória e oferece um “Guia para Ator e Diretor de Shakespeare”, além de quatro traduções, ao lado de Marcos Daud.

Uma delas é de “Hamlet”, que já encenou seis vezes. A primeira, no fim dos anos 1960, transformou a Dinamarca numa prisão, como diz Shakespeare no texto, mas era antes de mais nada uma reação à ditadura brasileira que ele havia acabado de visitar.

A montagem mais recente foi no Brasil, com Thiago Lacerda, mas a produção que o pôs na história do teatro britânico foi aquela em que vestiu o protagonista de pijama, em 1989. Com Rylance de aparência muito jovem, quis fazer um “Hamlet” doméstico, sobre um filho doente e seus pais.

Ele se lembrou do padrinho, “que passava o dia inteiro de pijama, sentado no portão de casa na rua Tavares de Macedo”, em Niterói. O Hamlet de pijama, como ficou conhecido, foi festejado pela crítica e se manteve em cartaz por anos, entre Londres e Stratford, onde fica a sede da companhia.

“A coisa mais extraordinária do Mark é que ele transforma toda a linguagem shakespeariana em aqui e agora”, diz Daniels. “Ele inventa as regras no momento, torna Shakespeare acessível, imediato. Isso para mim foi fundamental.” O trabalho com Rylance, Shaw, Derek Jacobi e outros ecoa no “Guia”.

Sua volta ao teatro brasileiro se deu como diretor, em 2000, convidado pela atriz Lígia Cortez, filha de Célia Helena e Raul Cortez, amigos dos primeiros anos, para dirigir “Rei Lear”, com Raul e Lígia. Ela, como Thiago Lacerda, lerá trechos no lançamento do livro.

Foi então que Daniels percebeu o limite das traduções à disposição no país e que levaram às quatro que publica agora. “Eram difíceis de falar, cheias de palavras que a gente não usa ou em ordem indireta, tudo fora da minha obsessão, que é o aqui e agora”, diz.

Suas traduções seguiram o trabalho que já trazia dos ensaios na RSC, de levar os atores a parafrasear Shakespeare, ampliando entendimento. A chave para a tradução é a paráfrase, diz, citando detalhes como a necessidade de reduzir o peso das vogais, que arrastam o verso em português.

Desde que reestreou nos teatros de Rio e São Paulo, o diretor volta e meia está no país. Acaba de fechar a sua quinta tradução de Shakespeare, novamente com Daud, e espera levar “Sonho de uma Noite de Verão” ao palco no ano que vem.

“Thiago e eu nos tornamos o centro de uma companhia shakespeariana”, diz, parafraseando em seguida um verso que havia lido no dia anterior, de Garcia Lorca —“Shakespeare envenenou a minha alma”.

Encontros com Shakespeare

  • Onde Lançamento com Thiago Lacerda e outros, na qua. (4), às 20h, no Sesc Vila Mariana (r. Pelotas, 141), com ingressos de R$ 9 a R$ 30
  • Preço R$ 70 (440 págs.)
  • Autor Ron Daniels
  • Editora Edições Sesc São Paulo,

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