Diretores voltam a dizer que Bolsonaro deveria assistir a 'Bacurau'

Atriz Sônia Braga também demonstra indignação com assassinato de Marielle Franco

Paula Sperb
Gramado (RS)

Chorando pela morte da amiga, Domingas, a médica de um povoado do sertão, grita: “Amigo não pode morrer”. A personagem de Bacurau (2019), que teve a primeira exibição pública no Brasil na última sexta-feira (16) no Festival de Gramado, é interpretada por Sônia Braga.

No debate que sucedeu à estreia, a atriz dedicou o filme à vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018 em caso ainda sem resolução. “Dediquei à Marielle e quero saber quem matou Marielle. Marielle vive, sim”, disse.

No longa, moradores são atacado por pistoleiros norte-americanos que ganham pontos por mortos.  Unido, o povoado usa a escola e o museu como esconderijo. É do museu que saem as poucas armas do século 19 que os moradores precisam retirar da exibição.

“Acho que a maioria das armas deveria ser destruída e, por um questão de arquivo, deveria ir para um museu”, disse Kléber Mendonça Filho, que dirigiu Bacurau com Juliano Dornelles.

As cenas que mais arrancaram reações do público da primeira sessão brasileira foram aquelas em que os moradores conseguiam reagir aos pistoleiros. A plateia comemorava. “Não é revanche, é resistência”, explicou Dornelles.

Os dois voltaram a repetir, como fizeram em Cannes, que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) deveria assistir ao filme.

“Espero que o presidente tenha curiosidade e assista. Queria que chegasse ao máximo de pessoas. O filme pode fazer as pessoas pensarem e até repensarem coisas. Quando você se confronta com um filme ou lê um livro, tem uma boa conversa com alguém, você se transforma, você muda. Isso é um sonho, mas seria incrível que o filme fosse um agente transformador para alguma pessoa, pelo menos em uma eu já seria muito feliz”, disse Dornelles à Folha

“Foi feito com dinheiro público. Por já ter sido vendido em quase todos os territórios do mundo, ele vai retornar todo o investimento de maneira muito honesta e clara. Como o presidente do Brasil, ele tem todo o direito de ver e reagir. O filme pode ser um agente transformador em relação a ele e as pessoas que trabalham com ele”, disse Filho, que destacou a geração de 800 empregos diretos e indiretos nos créditos do longa. 

Bacurau é “um western futurista sertanejo” que usa o efeito de zoom em diversas cenas, valorizando o formato de Cinemascope na fotografia do filme, comandada por Pedro Sotero.  Há referências ao cinema brasileiro, como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Roberto Santos e até filmes pop como Mad Max. “Tem que se reapropiar e fazer uma arte completamente inovadora. Tem até coisa de Hitchcock nesse filme”, disse Filho.

Como um filme também de ação, há um vilão clássico interpretado por Udo Kier. É do seu personagem, o líder dos pistoleiros, que se escuta uma das frases que indicam a distopia de Bacurau: “Isso é só o começo”. Os diretores contam que a fala não estava no roteiro. “A gente achou muito estranho e misterioso e acabou entrando no filme”, explicou Filho.

Há também diversos momentos que arrancaram risos na plateia. Um casal de forasteiros a passeio que chega desprevenido (Bacurau sumiu do GPS) à localidade. Eles se negam a visitar o museu e a mulher pergunta: “Quem nasce em Bacurau é o quê, hein?”. Um garotinho responde: “é gente”. O longa tem diversas passagens humoradas em meio a tanta crítica social.

Os diretores relataram que cenas encaradas como sérias pelos brasileiros causaram riso no exterior, como as aparições do prefeito pilantra Tony Jr. (Thardelly Lima), que entrega comidas vencidas e listas telefônicas como se fossem livros e ainda tenta a reeleição. 

Bacurau tem um sistema parecido com os das cidades do interior, de anúncios fúnebres. Uma lista de mortos é lida. São brasileiros com histórias reais que os diretores esperam que sejam descobertos. Entre eles, João Pedro Teixeira, paraibano líder da liga camponesa que foi tema do documentário “Cabra Marcado para Morrer”, de Eduardo Coutinho, que teve as filmagens interrompidas pela ditadura militar.

A repórter viajou a convite do festival

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