DJ brasileira filha de imigrantes, Lyzza se destaca na cena eletrônica da Europa

A fluidez com que atravessa gêneros e estilos, sem deixar escapar as batidas que dão ritmo, tem chamado a atenção

Felipe Maia
Barcelona

A história começa como outras. Mulher desempregada deixa o Brasil em busca de vida melhor na Europa, a filha de seis anos a tiracolo. O lugar escolhido é Amsterdã. Enquanto a mãe limpava a casa e cuidava das crianças do patrão, Lysa da Silva via desenhos animados no quartinho.

Na adolescência, mudou o nome para se lançar na música. Hoje, aos 20 anos, Lyzza é uma das novas caras da cena eletrônica europeia. A DJ e produtora já apareceu em publicações como Pitchfork, Crack e Dummy Magazine, além de ter tocado em palcos importantes do continente —o festival Sónar, em Barcelona, o clube DC-10, na ilha espanhola de Ibiza, e o Montreux Jazz Festival, na Suíça.

palco luminoso
Show da artista Lyzza no Sónar Festival - Nikola Lamburov

A fluidez com que atravessa gêneros e estilos, sem deixar escapar as batidas que dão ritmo à pista de dança, tem chamado a atenção. Numa única performance, Lyzza cruza uma versão industrial do clássico “Macarena”, um hit de MC Bin Laden e músicas com a aspereza do techno.

A verve prevalece em seu trabalho de produtora. No ano passado, ela lançou “IMPOSTER”. Lyzza abre o álbum com uma canção ornamentada de suaves arpejos de piano e fecha com algo que entraria no sub-gênero gabber —uns chamariam de “bate-estaca”.

“Quando toco como DJ, me comparo ao coelho que leva a Alice para o buraco”, diz ela, em frases que misturam português e inglês. “Você tem todo o controle sobre as pessoas e elas têm de aceitar aquilo que você está dando. Mas na composição sou eu sozinha lidando com a ansiedade, fazendo música no meu quarto.”

Essa fuga de rótulos não é nova. Mas existe um frescor nas palavras de Lyzza. Ele é cozinhado nas aspirações de uma juventude que põe em xeque as etiquetas sociais mais básicas, como gênero, sexualidade ou padrões de beleza.

Se essa geração faz esse questionamento nas redes sociais, ela também o faz na pista de dança. “Não havia muitos DJs jovens, mulheres e pretas em Amsterdã quando comecei a tocar, há quatro anos, mas eu sentia que pessoas LGBT ou que não eram brancas me aceitavam”, lembra. “Tem minorias que se sentem confortáveis no mesmo espaço em que estou tocando”.

Seu renome veio graças a apresentações fora da Holanda, quando passou a figurar em sites especializados e postagens de gente da noite. 

“Lyzza brinca bastante com o funk, mas também gosto dela cantando em português. É necessária essa inserção do funk feita por brasileiras”, diz a DJ e produtora Badsista, que vive em São Paulo e integra o coletivo TORMENTA. A paulistana produziu o remix de uma das faixas do primeiro EP de Lyzza. O álbum não tem data de lançamento, mas o próximo compacto de inéditas deve sair em outubro.

O disco será lançado em Londres, onde Lyzza vive hoje. A mudança não foi sem o aval da mãe. “Espero que um dia consiga fazer com que ela tenha vida de mãe, que eu consiga comprar uma casa pra ela.”

Voltar ao Brasil não é uma opção por ora. Visitar o país, sim. Lyzza nasceu em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, e tinha 15 anos  na última vez em que esteve ali. Ela pretende passar por São Paulo e Salvador na próxima viagem. Será a ocasião de encontrar a cantora Linn da Quebrada e passar na festa Batekoo, das quais é fã. Botar seu som em alguma pista é uma vontade inegável.  

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