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Cinema

Documentário narra descaso após crimes ambientais em Mariana

Relevância do tema de 'O Amigo do Rei' leva o espectador a ignorar seus defeitos, que não são poucos

Inácio Araujo

O Amigo do Rei

  • Quando Estreia nesta quinta (8)
  • Classificação 12 anos
  • Produção Brasil, 2019
  • Direção André D'Elia

Não é difícil fazer um inventário das questões em que toca “O Amigo do Rei”: rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG); drama humano das vítimas; denúncia do descaso, incompetência e ganância da Samarco/Vale; repercussões humanas e econômicas da catástrofe; discussão política em torno do sucedido; picaretagem pura e simples; questões ambientais (diversas, todas graves); danos à água; crítica da economia extrativista; crítica de estratégias de desenvolvimento governamentais; sucateamento do Estado; denúncia dos danos do financiamento de campanha.

Fiquemos por aqui e já dá para notar que, desde seu intento, “O Amigo do Rei” é um levantamento exaustivo (não por acaso dura quase 2h20) sobre um crime ambiental brutal, que seria seguido por outro maior ainda (Brumadinho).

O panorama que se abre ao espectador, desde o início, é o de um país em que incompetência, amadorismo, incompreensão do mundo, desprezo pelos outros juntam-se a tramóias puras e simples. Não se sabe qual desses fatores domina o país, ao menos em seu regime extrativista (mas não é impossível transpô-lo para outras regiões e aspectos).

Diga-se, Mariana já é tragédia antiga. Depois veio uma maior, a de Brumadinho. A questão não mudou um palmo de lá para cá. No aspecto político, no econômico, no ambiental.

A horas tantas o filme resume bem a questão: Minas Gerais tem quatro fiscais para cuidar de 735 barragens. Sim, quatro. Não quarenta, nem catorze.

Os especialistas, os ambientalistas, bradam; os que perderam bens e parentes continuavam a ver navios (quando o filme foi rodado, ao menos), um fundo de R$ 20 bilhões para reparação dos danos foi confiado à... adivinhe... Samarco/Vale.

Seria bem melhor se “O Amigo do Rei” deixasse certas infantilidades (como a acusação generalizada à política) cujas decorrências são bem conhecidas, se encontrasse maneiras de tornar a apresentação desses problemas mais agradável, seria melhor, sobretudo, que esse documentário enorme fosse transformado numa série para televisão.

Ainda assim, o que mais importa é que é relevante.

Pior: o que nos mostra é um problema, grande, mas, ainda assim, um entre os mil e um que culpabilizam nosso passado, atormentam o presente e fazem prever um futuro ainda mais irrespirável.

Com isso, “O Amigo do Rei” leva o espectador a ignorar seus defeitos, que não são poucos, a começar pela opção de não optar por um ponto de vista sobre a catástrofe, mas a busca de abarcar todos eles.

O que torna a questão mais complexa é que todos esses pontos de vista são pertinentes e, já dentro da segunda hora de filme, os vários eixos começam a se encontrar. O filme tem virtudes (sobretudo as cenas captadas a quente no local já valeriam um bom filme sem palavras, que falasse apenas por imagens) e defeitos (uso ruim da música em vários momentos; a inclusão de cenas de ficção política perfeitamente dispensáveis), mas o assunto passa por cima de tudo e garante sua relevância.

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