Drama de Noah Baumbach sobre divórcio desponta como favorito em Veneza

Com ecos de Bergman, longa com Adam Driver e Scarlett Johansson se cacifa para Oscar; Almodóvar é homenageado

Veneza

No segundo dia do Festival de Veneza o americano Noah Baumbach já despontou como um dos favoritos. Não só ao Leão de Ouro, pelo vigoroso drama cômico “História de um Casamento”, mas também na corrida pelo Oscar do ano que vem.

Adam Driver e Scarlett Johansson vivem um casal à beira do divórcio. Ele é Charlie, diretor teatral cult, e ela é Nicole, atriz que se mudou para Nova York para trabalhar nas peças experimentais do marido. Com o tempo, o romance esfria, as brigas não cessam, e a separação é inevitável.

uma mulher e um homem deitados na cama com sua filha pequena no meio
O diretor Noah Baumbach apresenta 'História de um Casamento', drama conjugal com Scarlett Johansson e Adam Driver - Divulgação

Não há um motivo especial para a crise, só um desgaste natural. Mas o amor entre eles —ou ao menos uma enorme ternura—  jamais vai embora, mesmo quando vão morar separados.

“Quando algo para de funcionar é que passamos a pensar em como aquilo funciona —a maçaneta de uma porta, por exemplo. É assim com o divórcio —a partir dele podemos estudar um casamento”, disse Baumbach à imprensa.

Quando entram em cena os advogados do divórcio de cada lado, uma disputa quase surreal se estabelece. O longa ganha uma face mais autêntica que os dramas conjugais comuns, com cada jurista usando as artimanhas e brechas legais da maneira mais esperta que pode, levando o ex-casal a se ver repentinamente num conflito de ares bélicos. Enquanto os advogados trocam acusações aviltantes diante do juiz, resta a Charlie e Nicole se entreolhar, com um misto de afeto e assombro, sem saber como chegaram àquele ponto.

O filme reverencia (e atualiza) “Cenas de um Casamento”, obra de Ingmar Bergman de 1975, que se tornou o produto audiovisual definitivo sobre um casal em crise. Destaca-se também por formidáveis cenas de explosão dramática e por outras irresistivelmente engraçadas.

O diretor até busca mostrar os dois lados no conflito, mas pende para aquele com que tem mais afinidade, o masculino. Nem precisava. Driver tem uma performance tão intensa, sofrida, que o filme seria dele de qualquer modo. Johansson também dá duro e, se não se deixa eclipsar, por vezes derrapa ao querer mostrar competência em excesso. 

“Deixar esses atores se perderem por completo, ao mesmo tempo em que tinham controle, foi extraordinário. Uma das experiências mais compensatórias que já tive”, disse Baumbach, famoso por conseguir boas atuações, vide o milagre de conter Adam Sandler em “Os Meyerowitz”, de 2017.

E há ainda Laura Dern, brilhante como a pragmática advogada que faz o impossível para se manter n.um ambiente em que o machismo ainda dá as cartas. Sai de Veneza como potencial indicada ao Oscar de atriz coadjuvante.

Outro momento marcante do dia foi a entrega de um Leão de Ouro especial a Pedro Almodóvar. O espanhol teve a carreira impulsionada por Veneza em 1988, quando foi premiado pelo roteiro de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”.

“Agradeço ao cinema e à música italiana pela contínua inspiração que dão ao meu trabalho e à minha vida”, declarou o cineasta. “Agora jamais estarei sozinho, este Leão me fará companhia”, concluiu.

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