Descrição de chapéu The New York Times

Entenda por que Taylor Swift quer regravar suas músicas antigas

Cantora tem plano para recuperar direito sobre seus originais após venda de gravadora

Joe Coscarelli
Nova York | The New York Times

​Quando Taylot Swift recorreu ao Tumblr, algumas semanas atrás, para lamentar a venda da Big Machine Label Group, de Nashville, a gravadora que controla os direitos sobre os seus seis primeiros álbuns, todos ganhadores de múltiplos discos de platina, ao poderoso empresário musical Scooter Braun, ela deu início a um diálogo que mobilizou o setor, sobre gravações master e os direitos dos artistas.

A transação de US$ 300 milhões (cerca de R$ 1,22 bi) "me privou do trabalho de minha vida", ela escreveu, e pôs seu catálogo de canções "nas mãos de alguém que tentou desmantelá-lo".

Ela disse que Braun, que trabalhou com Kanye West, velho desafeto de Swift, a havia submetido a anos de "intimidação incessante e manipuladora". Com as gravações masters de seus álbuns (ou seja, as gravações originais) sob o controle da Ithaca Holdings de Braun, a companhia poderia ditar de que maneira suas canções seriam vendidas e usadas no futuro.

Na época, Scott Borchetta, o fundador da Big Machine, reagiu contra a declaração de Swift afirmando que lhe havia dado a oportunidade de retomar o controle de seus masters com um novo contrato com sua gravadora. Em novembro, Swift trocou a Big Machine pela Republic Records, parte do Universal Music Group, com um contrato para múltiplos álbuns que lhe permite reter o controle de seus futuros masters.

Agora, com o lançamento de seu novo álbum, "Lover", Swift, que sempre age de modo tático, reacendeu a batalha no setor com uma ideia sem muitos precedentes: ela disse que pode regravar suas antigas composições e lançar novas versões, sobre as quais deteria o controle.

Ainda que a ideia já tivesse sido proposta pela cantora Kelly Clarkson, Swift agora mencionou a possibilidade publicamente de forma direta pela primeira vez, em uma entrevista pré-gravada ao programa "CBS Sunday Morning". Nela, a entrevistadora Tracy Smith perguntou se Swift havia considerado essa possibilidade. "Oh, sim", respondeu a cantora. Smith levou o assunto adiante. "Isso é um plano?" Swift respondeu que "sim, com certeza".

Um representante da artista se recusou a detalhar as intenções dela ou a responder questões sobre os termos de antigos contratos. A Universal Music não quis comentar. Braun e Borchetta não responderam a perguntas. Mas é dessa forma que as coisas podem transcorrer caso Swift opte por seguir um caminho assim drástico —e praticamente sem precedentes.

Direitos musicais são um assunto complicado, mas deter o direito sobre as gravações master e os direitos autorais associados não é tudo.

Embora o detentor da gravação original tipicamente tenha o direito de vender canções e álbuns, bem como o de licenciar gravações para uso em filmes, televisão e videogames, esses direitos são separados dos direitos sobre a composição em si, que usualmente são divididos entre os compositores. Quando uma canção é gravada como "cover", por exemplo, os compositores são remunerados; quando um "sample" da gravação é usado como parte de outra canção, tanto os compositores quanto o detentor do "master" se beneficiam.

Na maioria do contratos de gravação padrão, as gravadoras retêm a propriedade dos masters em troca do investimento que fazem em artistas ainda desconhecidos, na forma de despesas de gravação, promoção e outros gastos.

Mas porque Swift é creditada como principal compositora de todo o seu catálogo —excluídas algumas canções do EP de Natal que ela lançou em 2007—, ela poderia essencialmente se dar permissão para gravar "covers" de suas próprias composições sem ter de usar os "masters" controlados pela Big Machine e Braun.

O que poderia impedi-la?

Por um lado, não muitas preocupações práticas, já que estamos falando de Taylor Swift, uma das pessoas mais bem conectadas, ricas e poderosas da moderna indústria da música.

"Ela certamente tem o dinheiro para poder fazer isso, o que sempre seria uma questão a considerar em uma situação como essa", disse Mark Tavern, antigo executivo de uma grande gravadora e professor de negócios musicais no LaGuardia Community College. Uma coisa é fazer versões acústicas, outra é fazer uma produção pop completa, de forma que a torne competitiva com as gravações originais, ele disse.

Se Swift decidisse tentar uma recriação nota a nota capaz de substituir as versões antigas de seus sucessos nas coleções de seus fãs leais, ela provavelmente necessitaria do apoio de seus colaboradores nesses trabalhos, dos compositores que trabalharam com ela em canções, como Liz Rose, a produtores pop como Max Martin, Shellback e Jack Antonoff. "Isso seria o jeito mais tranquilo de proceder e evitaria reações negativas do público", disse Tavern, acrescentando que "cada coautor ganharia um caminhão de dinheiro com uma nova gravação".

Mas os passados contratos de Swift com a Big Machine, com a qual ela assinou ainda adolescente em 2005, podem incluir termos que compliquem as coisas.

Restrições à regravação de canções são comuns desde que os Everly Brothers regravaram versões de seus passados sucessos ao assinarem com uma nova gravadora na década de 1960, de acordo com Tavern. Esses termos tipicamente proíbem artistas de lançar versões regravadas de seus trabalhos por três a cinco anos ou mais. No caso de Swift, "não vimos os contratos, mas termos como esse costumam ser padrão nos contratos de qualquer artista", disse Tavern.

O primeiro álbum de Swift para a Big Machine, o disco de estreia "Taylor Swift", saiu em 2006, e o mais recente, "Reputation', foi lançado em 2017. Em teoria, caso seus contratos tenham restrições de prazo em vigor, ela poderia começar a lançar versões regravadas de acordo com a expiração desses prazos, a começar pelo primeiro disco.

Em entrevista ao programa "Good Morning America", Swift aludiu a essas restrições contratuais de forma mais específica. "Meu contrato diz que a partir de novembro de 2020, ou seja, no ano que vem, posso regravar os discos um a cinco", ela disse. "Estamos falando do ano que vem, está logo aí —vou estar bem ocupada, e isso me entusiasma." "Acredito que os artistas mereçam ser donos de seu trabalho", ela acrescentou. 

Taylor Swift em show na Califórnia em junho deste ano
Taylor Swift em show na Califórnia em junho deste ano - Mario Anzuoni/Reuters

Como isso funcionaria na prática?

Levando em consideração quaisquer restrições, Swift poderia optar por regravar álbuns inteiros ou por começar pelos singles mais tocados. As versões atualizadas poderiam então ser relançadas em mídia física, como novos produtos, ou via serviços de streaming, onde existiriam em companhia dos originais, deixando ao ouvinte a opção de ouvir, por exemplo, "Love Story" ou "Love Story" (versão 2020) no Spotify ou na Apple Music.

Por meio de seus contratos de direitos autorais como compositora, Swift também poderia instar qualquer pessoa que deseje licenciar suas canções no futuro a usar suas novas versões em lugar das versões da Big Machine.

Uma reviravolta interessante é que a atual gravadora e distribuidora de Swift, a Universal, também é a distribuidora da Big Machine, o que poderia pôr a empresa em concorrência com ela mesma.

Ao mesmo tempo, qualquer atenção dedicada às regravações poderia beneficiar as versões passadas, ajudando os lucros de Braun, Borchetta e da Big Machine. "Creio que haverá algum benefício para os masters originais nos serviços de streaming, porque as pessoas vão querer comparar", disse Tavern. "Não acho que as pessoas deixarão de ouvir os masters originais."

Para Swift, no entanto, a manobra pode ser mais uma tomada de posição do que uma jogada financeira. "Sabendo que ela gosta de cravar a faca, isso seria uma oportunidade para que faça isso", disse Tavern. "É a melhor maneira que ela tem de reagir à Big Machine."

Alguém já fez coisa parecida?

Além dos Everly Brothers, diversos artistas seguiram esse caminho —ou pelo menos ameaçaram fazê-lo.

Um exemplo famoso é Prince, que prometeu regravar todo o seu catálogo quando estava brigando com sua gravadora, a Warner Bros., na década de 1990, mas só lançou algumas faixas seletas antes de chegar a um acordo que lhe deu o controle sobre seus masters.

Mais recentemente, quando o setor se tornou digital, o Def Leppard proibiu sua gravadora, a Universal, de lançar seu catálogo de canções online. Em lugar disso, vendeu o que a banda definiu, de forma brincalhona, como "falsificações" de seus maiores sucessos, "Pour Some Sugar on Me" e "Rock of Ages". As partes por fim chegaram a um acordo sobre a música original.

A cantora pop Jojo foi ainda mais longe no ano passado, lançando versões regravadas de seus dois primeiros álbuns, que não estavam disponíveis em serviços de streaming, depois que o prazo de restrição de regravação se esgotou.

Já Swift ainda não revelou muita coisa sobre seus planos, mas sinalizou que vai realizá-los. No Tumblr, ela costuma expressar aprovação aos insights e teorias de fãs.

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