Descrição de chapéu Livros

Eu não tinha coragem de dizer 'vou ser músico', diz diretor artístico da Osesp

Arthur Nestrovski lança 'Tudo Tem a Ver', série de ensaios nos quais música dialoga com a literatura

Camila Fresca
São Paulo

Literatura e música são o cerne da atividade de Arthur Nestrovski, mas tudo podia ter sido diferente. “Concluí o ensino médio com 16 anos e acabei entrando na faculdade de medicina”, diz. 

“Eu era muito jovem e não tinha coragem de dizer ‘vou ser músico’”, afirma o filho de médico e que não tinha ninguém na família que se dedicasse à música, na Porto Alegre de 1977. “Só depois de quatro semestres é que larguei a medicina para seguir os estudos de música, que se combinaram com os de literatura.”

 

Essa história não está no livro “Tudo Tem a Ver”, uma espécie de balanço profissional que será lançado neste final de semana. Mas muitas outras facetas de sua trajetória são contempladas na obra, que traz textos de uma carreira que inclui livros ensaísticos, coletâneas, traduções e dez livros infantis 
(o 11º será lançado neste ano pela editora Ubu), que lhe renderam dois prêmios Jabuti. 

Em paralelo, Nestrovski ainda desenvolveu carreira musical como violonista e compositor popular, antes de se tornar diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, há nove anos.

A publicação abre com dez longos ensaios sobre literatura e música, selecionados a partir dos que “resistiriam a uma releitura e teriam um interesse potencial para o público dessas áreas”, explica.

O primeiro e mais antigo, “Debussy e Poe”, foi escrito originalmente em inglês, em 1983, como trabalho de conclusão do bacharelado em música na Universidade de York. 

O segundo ensaio, “As Ironias de Beethoven”, mostra como o compositor inaugura a modernidade musical, fazendo com que essa arte, da mesma forma que a literatura ou a filosofia, passasse a ser objeto de interpretação crítica.

Há uma circularidade de ideias perpassando os textos, que em princípio nasceram estanques. Beethoven volta no ensaio seguinte, que trata de Schumann por meio da ideia de que somos ainda românticos ou pós-românticos (e, portanto, modernos).

E Schumann é instrumento para análise da obra de Tom Jobim em “O Samba mais Bonito do Mundo”. O brasileiro, por sua vez, é evocado em “O Futuro do Passado: Pierre Verger, com Vinícius e Obama”.

Mais do que uma montagem intencional, as coincidências revelam o universo de referências do autor.

Nos ensaios sobre literatura, o que sobressai é a ligação de Nestrovski com os autores de língua inglesa, em textos que relacionam Henry James, T.S. Eliot, Samuel Taylor Coleridge e Harold Bloom, entre outros.

Todos eles estão nessa “modernidade”, ou na mesma mentalidade romântica, nascida no final do século 18, que interessa ao autor.

Aos ensaios mais longos se seguem dez textos breves sobre música e outros dez sobre literatura, dentre os muitos que Nestrovski escreveu para jornais —a maioria para a Folha— nos seus anos de atuação como crítico musical. 

“Isso me permitiu incluir textos de música popular. Tem Caetano, Chico, Rodrigo Rodrigues, assuntos que têm significado afetivo pra mim”, diz. A seleção inclui ainda escritores por quem Nestrovski tem “especial apreço” como Philip Roth, Nabokov, Ian McEwan ou Jorge Luis Borges.

Já a parte final do livro é inédita e foi escrita especialmente para essa publicação. Abordando as áreas em que o autor atuou, é uma espécie de reflexão misturada com memória, num depoimento pessoal que às vezes parece querer passar as coisas a limpo. 

“No fundo, o texto que mais vale é ‘O que Mais Tem a Ver’”, diz. A ideia para o livro nasceu de uma provocação de sua mulher, Claudia Cavalcanti, que o incentivou a fazer uma “autobiografia intelectual”. 

“Mas eu me senti um pouco esquisito fazendo isso, não achava o tom certo. Até que me ocorreu a ideia de fazer não um texto com início, meio e fim, mas pequenos blocos. São reflexões sem a ambição de que isso trace uma história de vida, embora ela esteja lá.”

Cada um dos blocos aborda uma atuação profissional —de tradutor, editor, professor, crítico e músico, chegando até a sua atividade atual, de diretor da Osesp. Esta última foi a que acabou por interromper a carreira intelectual, explorada nas primeiras partes do livro, a musical. 

Ele afirma que fez uma escolha consciente. “Um convite desses ou você aceita ou não terá outra chance na vida. Não tenho dúvidas de que essa é a mais importante atividade profissional que eu terei tido, pelo tempo que for.”

No entanto, como “tudo tem a ver”, Nestrovski acredita que para quem olhar retrospectivamente, muito do que está no livro deveria refletir em algumas características o que foi feito artisticamente com a Osesp na última década. “E que são uma enorme realização para mim”, diz.

Tudo Tem a Ver

  • Quando Lançamento em São Paulo no sábado (10), às 11h30
  • Onde Livraria da Vila - al. Lorena, 1.731, tel. (11) 3062-1063
  • Preço R$ 79,90 (448 págs.)
  • Autor Arthur Nestrovski
  • Editora Todavia

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.