Descrição de chapéu

Fernanda Young marcou a TV brasileira com estilo ferino e imagem forte

Em parceria com o marido, autora escreveu séries como 'Os Normais' e 'Shippados'

Tony Goes
São Paulo

Conheci Fernanda Young em 1993. Tímida e pequenina, ela fazia um contraste divertido com o namorado, o gigantesco Alexandre Machado, com quem eu trabalhava em uma agência de propaganda no Rio de Janeiro. Saíamos em grupo e ela mal abria boca.

Não demorou para que Fernanda se fizesse ouvir. Alguns anos depois, já instalada em São Paulo, ela publicou o romance “Vergonha dos Pés” e causou impacto no mundo literário. Aquela garota que eu achei calada não tinha o menor pudor em se expor.

Retrato de Fernanda Young - Lucas Lima/UOL/Folhapress

Foram muitos livros desde então, mas seus trabalhos de maior repercussão foram as séries de TV que escreveu em parceria com Alexandre. Entre elas, a que, na minha opinião, é a melhor sitcom brasileira de todos os tempos: “Os Normais” (Globo), que teve três temporadas entre 2001 e 2003.

Os eternamente noivos Rui (Luiz Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres) tinham muito de Alexandre e Fernanda, já casados na época, e de qualquer casal junto há muito tempo. Os autores conseguiam captar a dinâmica do dia a dia de uma relação, salpicada de birras e carinhos sem ter fim.

Fernanda e Alexandre viraram uma grife e assinaram juntos mais de uma dezena de outras séries, exibidas pela Globo e pelo canal pago GNT. Algumas eram ótimas, como “Minha Nada Mole Vida” (2006), em que Luiz Fernando Guimarães fazia um colunista social que também era pai solteiro. Ou a cáustica “Separação?!” (2010), indicada ao Emmy Internacional, em que Débora Bloch e Vladimir Brichta protagonizavam um divórcio interminável.

Nenhuma delas teve o impacto de “Os Normais”, e algumas, como “O Dentista Mascarado” —o primeiro programa estrelado por Marcelo Adnet na Globo, em 2013— eram francamente ruins. Mas o casal produzia muito, e voltou a brilhar com seus últimos trabalhos.

“Vade Retro”, de 2017, é uma pérola a ser redescoberta. Malhada pela crítica na época, a minissérie girava em torno de uma advogada (Monica Iozzi) que se encantava por um cliente chamado Abel Zebu (Tony Ramos). Brincando com todos os clichês dos filmes sobre demônios e exorcistas, o texto questionava a ética e a religião sem deixar de fazer rir.

A mais recente, “Shippados”, de 2019, está disponível na Globoplay e ainda não tem data de exibição na TV aberta. Tomara que não demore: quase duas décadas depois de “Os Normais”, Fernanda Young e Alexandre Machado voltaram às mazelas de um casal de namorados (Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch), agora temperado pelo mundo novo e agressivo dos aplicativos de paquera. É a melhor série cômica nacional deste ano.

Paralelamente à carreira de escritora e roteirista, Fernanda Young se tornou uma personalidade midiática. Bonita, tatuada, desinibida, era o sonho dos entrevistadores: sempre rendia boas declarações e boas fotos. Não tinha papas na língua e não poupava nada nem ninguém, a começar por si mesma.

Falava sem rodeios das eventuais crises de seu casamento, ou da grave pneumonia que manteve Alexandre internado durante meses, em 2017. Dizia que achava mais plausível alguém se masturbar lendo seus livros do que com a edição da revista “Playboy” para que posou, em 2009.

A imagem de doidivanas destoava da mãe zelosa de quatro filhos (um deles, Estela May, é cartunista da Folha) e dona de dois cães e três gatos. Até nisso, Fernanda Young desafiava nossas ideias pré-concebidas. Já está fazendo falta.

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