Descrição de chapéu Artes Cênicas

Governante interpreta leis ao seu bel-prazer em ópera portuguesa de 300 anos

Espetáculo 'O Grande Governador da Ilha dos Lagartos' recebeu nova montagem em Ouro Preto

Camila Fresca
Ouro Preto (MG)

Um governante que interpreta a lei a seu bel-prazer, sendo ao mesmo tempo o juiz que aplica a pena que bem entende. Este é “O Grande Governador da Ilha dos Lagartos”, narrativa que integra a obra “Vida do Grande Dom Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança”.

O texto, atualíssimo, tem quase 300 anos e foi escrito por Antônio José da Silva, um dos maiores dramaturgos de língua portuguesa. A ópera, que estreou em 1733 com grande sucesso em Portugal, recebeu nova montagem pela Academia Orquestra Ouro Preto no último fim de semana (15).

O espetáculo é inédito por se escorar num trabalho de reconstituição das partes cantadas, que ficou à cargo do musicólogo britânico David Cranmer, professor da Universidade Nova de Lisboa. Isso porque as partes musicais da obra se perderam.

Também conhecido como o judeu —apelido em desuso porque pejorativo— Antônio José da Silva nasceu no Brasil e se mudou com a família para Portugal aos seis anos de idade por causa de perseguições religiosas. 

Apesar de cristão-novo, foi perseguido pela Inquisição por práticas judaizantes e acabou queimado num auto de fé em Lisboa. Sua obra dramática tinha partes musicadas com árias, duetos e coros, e a encenação era entremeada por peças instrumentais da época. Por isso, esse tipo de obra é hoje considerado uma ópera.

“No manuscrito original, temos a anotação ‘ária’ e o texto da canção, mas não há uma nota musical sequer”, explica o maestro Rodrigo Toffolo, criador e regente da Academia. 

“Cranmer realizou um minucioso trabalho de pesquisa e comparação de manuscritos da época de Antônio José da Silva, encontrando trechos musicais que se encaixavam perfeitamente na métrica do texto das árias”, completa.

A maior parte da música utilizada é dos compositores António Teixeira e Carlos Seixas, contemporâneos de Antônio José da Silva e cujas músicas eram frequentemente utilizadas em suas obras.

A encenação aconteceu na Casa da Ópera de Ouro Preto que, fundada em 1770, é o mais antigo teatro em funcionamento da América Latina. Trinta e dois profissionais entre instrumentistas, cantores e atores ajudaram a reconstruir a sátira política de Antônio José da Silva. 

Dirigido por Juliano Mendes, o espetáculo teve como solistas os cantores Carla Rizzi, Alberto Pacheco, Fabrício Claussen e Carlos Eduardo Vieira. A montagem, simples e eficiente, teve bom desempenho de todos os participantes e conseguiu dialogar com o público, aproximando o texto da atualidade.

Fundada em março deste ano, a Academia Orquestra Ouro Preto reúne 22 jovens de 18 a 28 anos da região da Grande Belo Horizonte que se encontram semanalmente para aulas e ensaios. “Nossa ideia foi criar um espaço para o aperfeiçoamento de jovens músicos”, explica Toffolo. 

“Muitos deles se iniciam na música por meio dos projetos sociais, mas tem de deixá-los ao completar 18 anos. Detectamos uma lacuna entre a fase final de aprendizado e a profissionalização, que procuramos sanar com a Academia.” O projeto é ligado à Orquestra Ouro Preto, conjunto totalmente independente fundado no ano 2000 e dirigido por Rodrigo Toffolo.

A jornalista viajou a convite da Academia Orquestra Ouro Preto

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