Descrição de chapéu
Artes Cênicas

Homenagem do Grupo Corpo a Gilberto Gil é respiro em nossos asfixiantes tempos

Com a dança de Xangô como partida, novo espetáculo da companhia busca seu lugar entre a deferência e a invenção

Bailarinos do Grupo Corpo no espetáculo 'Gil'
Bailarinos do Grupo Corpo no espetáculo 'Gil' - José Luiz Pederneiras/Divulgação
Amanda Queirós
São Paulo

Em seus 44 anos de trajetória, o Grupo Corpo já levantou espetáculos a partir da obra de compositores como Bach e Ernesto Nazareth, mas “Gil” é a primeira vez em que o homenageado é também autor da trilha a ser dançada

Essa escolha provoca ganho de autenticidade, mas também pode representar amarras. Afinal, um objeto costuma ser observado melhor de fora do que de dentro. 

Isso faz com que a mais recente criação de Rodrigo Pederneiras tente encontrar seu lugar entre a deferência e a invenção, um desafio ampliado com a expectativa gerada pelo catártico “Gira” (2017). 

Dessa vez, o coreógrafo incorpora a influência das religiões de matrizes afrobrasileiras experimentada no trabalho anterior, mas de forma mais pontual. A partida é a dança de Xangô, o orixá de Gilberto Gil no candomblé.

O movimento em que as mãos batem alternadamente no peito é repetido ao longo do espetáculo. A cada vez que aparece, no entanto, ele se desdobra dentro do vocabulário sinuoso típico da companhia, ganhando novas leituras.

Outro ponto em comum com “Gira” é um certo aterramento da dança, algo realçado pelo contraste com os saltos explosivos da outra obra do programa, “Sete ou Oito Peças para um Ballet” (1994). 

Os bailarinos estão mais presos ao chão e, mesmo quando vão ao ar, o fazem de forma tímida e rápida. Isso poderia resvalar em uma coreografia pesada, mas a tônica é justamente oposta.

Há uma leveza consciente em todos os gestos, até mesmo nos ataques tão próprios do Corpo. O arrebatamento que esses movimentos costumam provocar abre espaço para uma suavidade que sintoniza com a serenidade emanada pela voz de Gil

Essa escolha, no entanto, torna mais difícil a tarefa de produzir o impacto que as obras da companhia costumam provocar, pois exige um mergulho mais atento numa trilha que, apesar de chegar facilmente aos ouvidos, exala complexidade.

Ao lado do filho Bem, Gil se desconstrói para se reconstruir, criando de forma muito orgânica um pout-pourri com frases instrumentais de seus maiores sucessos. 

A base melódica, por sua vez, tenta sintetizar em 40 minutos o caldeirão sonoro que permeia os 60 anos de carreira do tropicalista. Música erudita, tambores afro, choro e música eletrônica se somam a baladas jazzísticas. 

Esses sons se transformam a todo instante, pela entrada de novos instrumentos ou modulações, dando leituras pouco óbvias a canções muito conhecidas. 

Em termos coreográficos, essa reinterpretação acontece de forma menos efusiva, mas faz questão de realçar o traço popular de Gil, especialmente a partir da inclusão de referências a danças sociais, como o samba, o soul e um quê de samba-rock, em um dos raros momentos a dois desta obra que não apresenta o tradicional duo de Rodrigo Pederneiras. 

Diante desse contexto, o painel em amarelo vibrante do cenário de Paulo Pederneiras e os figurinos de Freusa Zechmeister com estampas coloridas de Joana Lira criam um ambiente ao mesmo tempo caloroso e solene que reforça a vocação da obra. 

Mais do que deixar o público de queixo caído com a técnica dos bailarinos, “Gil” se ergue como um espetáculo aconchegante, no qual a delicadeza se sobrepõe ao vigor na exaltação da brasilidade que é a cara do compositor baiano.

Com isso, oferece um bem vindo respiro para o asfixiante tempo em que vivemos.

Gil

  • Quando qua. a sex., às 20h30; sáb., às 20h; e dom., às 18h. Até 18/8
  • Onde Teatro Alfa, r. Bento Branco de Andrade Filho, 722
  • Preço de R$ 75 a R$ 190
  • Classificação Livre
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.