HQ 'Mort Cinder', com traços expressionistas, ganha edição brasileira de luxo

Uruguaio Alberto Breccia era grande admirador de Edvard Munch

Érico Assis

Mort Cinder

  • Preço R$ 89,00 (232 págs.)
  • Autor Héctor German Oesterheld e Alberto Breccia (Ernani Ssó)
  • Editora Figura

“Breccia era um discípulo de Caniff, mas admirava Munch.” Foi assim que o escritor Guillermo Saccomanno descreveu Alberto Breccia (1919-1993), uruguaio que se tornou um dos nomes mais famosos do quadrinho argentino.

A comparação diz muito: Milton Caniff, o cartunista de Steve Canyon, foi um dos marcos das tiras de jornal, dos desenhos belos e narrativa clara. Edvard Munch, por outro lado, é o autor de pinturas expressionistas como “O Grito”.

Breccia viveu parte da carreira nesta dicotomia. Era um pintor expressionista fazendo HQs de aventura e suspense. "Mort Cinder", uma de suas colaborações com Héctor German Oesterheld —outro nome imenso no quadrinho argentino, autor de O Eternauta—, é o momento em que o artista resolveu este choque de estilos.

A premissa é das aventuras seriadas. O antiquário londrino Ezra Winston conhece o personagem titular, um imortal, quando este é perseguido por estranhos homens com olhos de chumbo.

Há um toque de sobrenatural, misturado com sociedades secretas e um cientista louco. O motor das histórias se repete: um objeto trazido ao antiquário ativa uma memória de Cinder, como a construção da Torre de Babel, viajar em um navio negreiro, a Primeira Guerra Mundial. O imortal esteve nestes e outros momentos históricos.

Por que e como Mort Cinder volta do túmulo toda vez que é morto, nunca se explica.

As histórias saíram no início dos anos 1960 no semanário Misterix, em capítulos, em papel jornal. Já a edição brasileira chega com papel acetinado, capa dura e outro luxo: a restauração da arte de Breccia, com meio-tons e filigranas que, em meio século, só havia visto quem conhecia os originais.

Parece preciosismo falar da qualidade de reprodução, mas aqui ela é um elemento importante. Encontra-se na internet os vídeos em que Breccia demonstra como desenhar com lâmina de barbear e nanquim. Professor de desenho e ilustração por décadas, ele gostava de experimentar materiais alternativos.

O que saía nas revistas, porém, era um preto e branco chapado. O que se vê nesta edição de Mort Cinder é toda extensão do trabalho de Breccia com o nanquim.

O expressionismo ganhou mais força no trabalho do uruguaio dali em diante. Suas adaptações de Poe e Lovecraft —que devem sair no ano que vem no Brasil— são uma mistura de técnicas e de experimentos narrativos admirados ainda hoje.

"Mort Cinder" é o momento de virada porque se percebe claramente o traço mais elaborado, pesado, escultórico, em relação a seus trabalhos anteriores. Também porque Oesterheld, como roteirista, foi pego de surpresa ao ver aqueles páginas no que pensava ser mais uma série de aventura e suspense.

O desenho às vezes parece refinado ou estático demais para as trocas de soco que o roteiro pede. Oesterheld, porém, se adapta. Se há histórias que começam à la Sherlock Holmes —Ezra e Mort assistem uma reportagem sobre a maldição de uma tumba egípcia e partem para investigar -, outras combinam o traço portentoso a texto do mesmo porte.

É o caso do último conto, em que Mort Cinder relata sua participação na Batalha das Termópilas —mais conhecida pelos fãs de HQ em 300 de Esparta, de Frank Miller (por acaso, um estudioso de Breccia).
Enquanto Breccia constrói as cenas de batalha e a tensão no rosto de cada soldado com nanquim detalhista e expressivo, Oesterheld coloca a literatura de guerra e de sofrimento na narração de Cinder.

A série parou por aí. Oesterheld e Breccia voltariam a colaborar —uma de suas parcerias, a biografia de Che Guevara, já saiu no Brasil—, e Mort Cinder seria descoberto pela crítica anos depois da publicação. Pouco conhecido por aqui, Breccia felizmente é bem recordado e bem apresentado no seu centenário.

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