Inéditos de Kafka ajudam a entender relação do escritor com judaísmo e Israel

A maior surpresa do baú, aberto nesta semana, foi a revelação de um caderno no qual ele, que era judeu, praticava hebraico

Daniela Kresch
Tel Aviv

Qual foi o processo usado por Franz Kafka para escrever “O Processo”? Estudiosos do escritor de língua alemã morto precocemente em 1924, aos 40 anos, de tuberculose, têm agora mais fontes para entender a genialidade do criador de “A Metamorfose” e “O Castelo”.

O último pedaço do quebra-cabeças chamado Kafka foi apresentado ao público nesta quarta-feira (7), em Jerusalém, depois que o último cofre contendo manuscritos, cartas, cadernos e desenhos do escritor, que estava num banco suíço, chegou à Biblioteca Nacional de Israel após uma batalha jurídica que durou 12 anos.

A apresentação foi o posfácio da luta pelo legado do escritor de Praga entre uma família e duas instituições literárias pelo acervo do escritor austríaco Max Brod (1884-1968), que inclui material de Kafka, seu melhor amigo. A Biblioteca Nacional de Israel levou a melhor e acabou por receber o que faltava do material de Brod, incluindo esse último cofre, que estava no Banco UBS, em Zurique.

Os documentos chegaram há duas semanas a Israel em pequenas malas. Os especialistas israelenses não esperavam que o cofre contivesse novas e inéditas obras de arte de Kafka —todas publicadas e conhecidas. Mas os papéis revelaram algumas joias, como três rascunhos de “Cenas de um Casamento no Campo”, seu primeiro livro (1907), que vão ajudar a entender como o escritor processava suas ideias, diários de viagens e desenhos inéditos.

A maior surpresa, no entanto, foi a revelação de um caderno de exercícios no qual Kafka, que era judeu, praticava hebraico e até mesmo escreveu um artigo na língua milenar do Velho Testamento.

“Até esta semana, sabíamos que Kafka começou a estudar hebraico em 1917 e que o legado de Brod incluía oito cadernos nos quais Kafka listava palavras em hebraico com suas traduções em alemão. Mas agora, 95 anos depois de sua morte, descobrimos um nono caderno até então desconhecido, o chamado ‘Caderno Azul’, de 1922”, diz à Folha o escritor Benjamin Balint, autor do livro “O Último Processo de Kafka: O Caso de um Legado Literário”, que será lançado em português no primeiro trimestre de 2020.

O caderno inclui um ditado maravilhosamente kafkiano que ele escreveu para sua professora de hebraico, Puah Puah Ben Tovim: “não se chateie, eu me chateio suficientemente por nós dois”. Também inclui um relatório de Kafka em hebraico sobre uma greve de professores na Palestina pré-Estado de Israel, em 1922 (que pode ter sido copiado de um jornal ou escrito pelo próprio Kafka, ainda não se sabe).

“Na minha opinião, isso lança uma luz nova e significativa sobre seu interesse não apenas pela língua hebraica, mas também nos eventos do Yishuv (comunidade judaica na Palestina), no destino da imigração judaica e no reavivamento sionista da língua hebraica”, diz Balint.

Kafka começou a aprender hebraico em 1917, mesmo ano em que foi diagnosticado com a doença que acabou por vitimá-lo sete anos depois: tuberculose. Os exercícios pegaram de surpresa seu melhor amigo, Max Brod, um grande defensor do sionismo como autodeterminação do povo judeu. Kafka não demonstrava, pelo menos até então, nenhum interesse ou simpatia pelo movimento.

Mas, ao que tudo indica, Kafka se aproximava de sua herança judaica em seus últimos anos de vida. Chegou a comentar, enquanto sua saúde piorava, que gostaria de abrir um restaurante na Palestina.

A ligação de Kafka com o judaísmo e Israel foi um dos principais motivos que levaram a Biblioteca Nacional a lutar pelo acervo de Max Brod. “Depois de ver os materiais, incluindo o caderno em hebraico de Kafka e as cartas sobre o sionismo e o judaísmo, agora está mais claro do que nunca que a Biblioteca Nacional de Jerusalém é a legítima casa dos manuscritos de Brod e Kafka”, disse o presidente da biblioteca, David Blumberg.

Três lados se digladiaram por anos pelo acervo de Max Brod, que morreu em 1968, em Tel Aviv. Ele deixou tudo, incluindo os escritos de Kafka, seu melhor amigo, para sua secretária, Esther Hoffe, pedindo-lhe que os entregasse à Biblioteca Nacional de Israel, a BNI. Mas Hoffe nunca o fez —escondendo ou vendendo partes do tesouro literário em bancos na Suíça e em Israel e em seu apartamento.

Depois de sua morte, em 2007, a BNI e o Arquivo Literário alemão de Marbach lutaram pelos manuscritos em tribunais de Israel, da Alemanha e da Suíça. O Supremo Tribunal de Israel decidiu, em 2016, pela Biblioteca Nacional. As cortes dos outros dois países acabaram confirmando o veredito.

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