Descrição de chapéu

Livro dribla melodrama com personagem que usa sono para superar luto

Obra sobre jovem que dorme por um ano descreve vazio existencial sem incorrer na ausência de narrativa

Camila Von Holdefer

Livros que procuram retratar o vazio, sobretudo o de uma juventude vista como perdida e superficial, costumam focar em uma vida de aparências marcada pelas noitadas, pelo consumismo, pelo uso recreativo ou compulsivo de substâncias lícitas ou ilícitas.

“Meu Ano de Descanso e Relaxamento” é diferente, pelo menos em parte. Tudo o que a protagonista —que além de rica é “alta, magra, loira, bonita e jovem”— quer é dormir. Em junho de 2000, ela começa a “hibernar”.

Levando a negação e o escapismo ao extremo, mais ou menos como “uma medida de autopreservação”, sua intenção é evitar “as misérias” de sentir e pensar. Para isso, ingere quantidades assustadoras de medicamentos tarja preta, todos prescritos pela desmiolada dra. Tuttle.

Elogiado no exterior, o romance de Ottessa Moshfegh chega ao Brasil com ótima tradução de Juliana Cunha. Um dos maiores trunfos da autora é evitar tanto o melodrama quanto uma crítica genérica de um mal que sempre parece igualmente genérico. Outro é descrever um vazio existencial sem criar esse mesmo vazio na narrativa. Moshfegh consegue tudo isso sem fazer um grande esforço para tornar a narradora privilegiada palatável ou suas escolhas compreensíveis.

A escritora americana Ottessa Moshfegh, autora de 'Meu Ano de Descanso e Relaxamento'
A escritora americana Ottessa Moshfegh, autora de 'Meu Ano de Descanso e Relaxamento' - Divulgação

Quem vê nas festas, compras e dietas uma forma de compensação pelos infortúnios é Reva, amiga e alvo constante da crueldade da protagonista —que identifica a própria superioridade nos altos e baixos da outra, nas suas frases feitas e tentativas de se encaixar num padrão. Seu conforto ilusório é ter em Reva um suposto negativo.

Ao se retirar para a inconsciência, a protagonista quer deixar para trás as lembranças de uma infância sem afeto, com pais que eram como dois estranhos. Quando o período de hibernação tem início, tanto o pai (antes enfurnado no escritório, cercado de livros e papéis) quanto a mãe (antes enfurnada no quarto, bebendo vodca e vendo TV) já morreram. Em grande medida, o sono é uma forma de lidar com o luto.

A partir do presente estéril, preenchido por idas à psiquiatra, maratonas de filmes e visitas indesejadas de Reva, a narradora oferece vislumbres de um passado igualmente triste. As poucas memórias do antigo lar são quase todas visuais ou táteis —as roupas em tons claros, o carpete felpudo, a madeira encerada. Se envolvem alguma emoção, é a melancolia.

 

O ponto de virada ocorre quando um dos medicamentos passa a provocar apagões. A nova ideia da protagonista para se manter inconsciente, e para emergir renovada, é muito mais radical que a anterior. É aí que entra a questão do despojamento, que não diz respeito apenas ao entulho mental.

A visão da narradora de Moshfegh, que é formada em história da arte, é ao mesmo tempo afiada e cansada. Do início ao fim, decifra signos e os julga de forma implacável. Quase nada a surpreende. O ano de descanso e relaxamento pode lhe ensinar a enxergar o que importa.

'Meu Ano de Descanso e Relaxamento'

  • Preço R$ 54,90 (240 págs.)
  • Autor Ottessa Moshfegh
  • Editora Todavia
  • Tradução Juliana Cunha
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