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Moçambicano culpa Brasil e Portugal por baixa difusão da atual literatura africana

Para poeta Mbate Pedro, academia não reconhece novos autores, diz poeta

Naief Haddad
São Paulo

Em passagem recente pelo Brasil, o autor moçambicano Mbate Pedro chamou a atenção pela engenhosidade da sua poesia. Recém-lançado, seu livro “Vácuos” foi finalista do Oceanos, prêmio que contempla obras publicadas nos países lusófonos.

Pedro tem mostrado, especialmente em festivais literários, seu estilo descontraído e o talento para contar episódios curiosos e divertidos. “Um amigo psiquiatra me disse que tinha grande admiração por nós, escritores. ‘Vocês têm uma vantagem que os meus pacientes não têm’, dizia. ‘Vocês entram e saem da loucura sem se magoar.’”

O poeta de 41 anos arremata a lembrança com um riso.

O bom humor de Pedro não deve ser confundido com alienação ou inocência. Nesta entrevista, ele é enfático nas críticas aos estudos acadêmicos dedicados à literatura moçambicana. Refere-se especialmente às universidades brasileiras e portuguesas. 

“A academia tem fraca capacidade de reconhecer os novos talentos. Sempre fala dos mesmos, como Mia Couto e Paulina Chiziane”, afirma. Ele trata esse cenário como uma “hegemonia literária que pode não ser representativa de uma literatura rica e vasta”.

“Quando digo isso, me respondem que demora um bocadinho para que um escritor se torne um cânone literário. Os processos artísticos estão a mudar, é preciso que a academia se adapte a essa realidade”, diz o poeta, vencedor do prêmio BCI por “Debaixo do Silêncio que Arde”, de 2015.

Pedro acredita que a ainda escassa difusão de romances e obras de poesia da África no Brasil se deve, em parte, a uma abordagem equivocada de muitas universidades. 

“O modelo que a academia usa para falar da literatura africana, focado na oralidade, está esgotado. Aqui e em Portugal, sempre me perguntam se alguém vem até mim para contar os poemas que escrevo. Nossos processos de escrita na África são os mesmos dos de qualquer autor no mundo. Temos experiência de vida, a imaginação, as leituras.”

Ele também aponta responsabilidade da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a CPLP, pelo fato de os leitores brasileiros conhecerem tão pouco os autores das novas gerações de Moçambique e vice-versa. 

“O envio de livros de um país para o outro sai muito caro. Uma instituição como a CPLP deveria se empenhar para facilitar esse transporte”, diz Pedro. “Ela não tem uma política literária, tudo depende de iniciativas individuais.”

Apesar dos entraves, essas ações citadas por ele têm facilitado gradualmente o acesso de brasileiros a escritores moçambicanos em ascensão, como o poeta Sangare Okapi, autor do livro “Mesmos Barcos”, publicado por aqui pela Kapulana. A mesma editora lançou também o romance “A Triste História de Barcolino, o Homem que Não Sabia Morrer”, de Lucílio Manjate.

A morte é tema central da prosa de Manjate assim como acontece nos poemas de Pedro recém-lançados no Brasil.

“O vácuo é um símile tanto da morte (tema obsessivo do livro) quanto de um entendimento do amor como ‘ferida ferindo a outra ferida que jaz dentro’, cifra corporal de nosso deserto existencial”, escreveu o crítico Manuel da Costa Pinto a respeito do livro do autor moçambicano.

É natural que a vida chegue ao fim ou esteja por um fio nos versos de um escritor que também é médico.
Aliás, uma vocação alimenta a outra. “A poesia exige muito rigor no trabalho com as palavras, e esse rigor vem da medicina. Por outro lado, a criatividade que levo à minha medicina vem da literatura. As universidades ensinam as pessoas a pensar, mas não deixam espaço a que sejam criativas.”  

Trabalhando numa agência de saúde pública em Maputo, capital de seu país, Pedro consegue conciliar bem as demandas da medicina e da literatura. Há dez anos, no entanto, a combinação era mais difícil. Ele estava na linha de frente do combate à Aids em Moçambique como membro da Médicos sem Fronteiras.

“É uma organização aberta, sensível a diferenças culturais. Houve um período no escritório em Maputo em que meu chefe era baterista e minha colega, artista plástica. E todos médicos. Era um ambiente de loucos”, brinca.    

Talvez a maior insanidade de Pedro seja a escolha da literatura num país que, segundo as contas dele, tem apenas seis livrarias. Com uma população de cerca de 30 milhões de habitantes, Moçambique registra apenas uma livraria para cada 5 milhões. 

Mesmo com a queda acentuada nos últimos anos, o Brasil tem uma livraria para cada 84 mil pessoas. 
Pedro não se importa. Diz que não é ele quem vai atrás da literatura, é ela que está sempre a acompanhá-lo.

Vácuos
Mbate Pedro. Editora: Cepe. Quanto: R$ 20 (77 págs.)

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