Descrição de chapéu Artes Cênicas

Musa do cinema marginal fica 24h em cena em performance de Nuno Ramos

Aos 80, Helena Ignez fez ação que resgatou frase icônica de 'Copacabana Mon Amour': 'Tenho nojo de pobre'

Paula Sperb
Porto Alegre

A “fera oxigenada” aparece usando um vestido vermelho curtíssimo sobre o corpo esguio. Ela está na tela e no palco ao mesmo tempo, com uma diferença de 49 anos entre o filme projetado e a performance que inicia. 

Helena Ignez, 80, que interpreta a personagem Sonia Silk, de “Copacabana Mon Amour” (1970), icônico filme do cinema marginal dirigido por Rogério Sganzerla, interage com ela mesma durante 24 horas no espetáculo comandado por Nuno Ramos.

A montagem foi apresentada pela primeira vez na capital gaúcha, no palco erguido sobre as poltronas da Cinemateca Capitólio, durante o 33º Festival de Arte Cidade de Porto Alegre, entre a última terça (6) e quarta-feira (7). 

A atriz repetiu cenas e falas do filme, mas também comeu, dormiu, foi ao banheiro diante do público —e mesmo de madrugada havia público. 

“Detesto essa miséria. Tenho nojo de pobre, nojo de pobre. Minha família é muito rica, tem carro, piscina, dez banheiros. Ah! Tenho horror de pobre”, diz a personagem miserável, que mora num barraco com a mãe e o irmão e sonha em ser cantora da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. 

No palco, 49 anos depois, Helena Ignez repete simultaneamente gritando: “Tenho nojo de pobre, nojo de pobre”. 

Para o diretor Nuno Ramos, esse é uma das falas que mais aproximam o longa, censurado pela ditadura militar, dos dias atuais. “No filme, as pessoas falam frases feitas sobre si mesmas o tempo todo, de forma cíclica. É uma coisa brutal, pouco elevada. Tem várias frases que são idênticas a hoje, mostram uma falta de limite”, disse. 

Nuno queria trabalhar com o cinema marginal. Inicialmente, pensava em algo ligado à produtora de filmes Bel-Air, de Sganzerla e Júlio Bressane. A decisão por “Copacabana Mon Amour”, um dos sete longas gravados pela dupla entre fevereiro e maio de 1970, foi influência de Helena.

“A escolha de um filme do cinema marginal tem a ver com o que a gente está passando: uma coisa violenta, grotesca. Esses filmes acessaram esse grotesco. O Brasil está em um estado que é como se fosse o inconsciente exposto em praça pública. É muito estranho, como se o inconsciente tivesse emergido com uma violência que a gente freava, que a gente disfarçava, Parece que agora o papel da arte é o inverso, é o de devolver os parâmetros”, explica o artista.

As primeiras sessões, que iniciaram às 20h de terça e seguiram até as 20h de quarta, lotaram os cem lugares disponíveis no Capitólio. A atriz octogenária começou mais solene, “parecia um momento sacro”, segundo Nuno, explorando devagar o cenário montado. 

Ela se sentou em uma poltrona típica dos anos 1970, caminhou, abraçou um golfinho inflável em cima da cama e mexia no cabelo com peruca loura da “fera oxigenada”. Quando foi projetada a cena em que grita na rua, parecendo possuída pelo demônio, enquanto chove, Helena vestiu uma capa de chuva, curta e vermelha como a do filme. 

A interpretação também foi mais “fantasmagórica”, com Helena usando um lençol branco no palco, como o personagem do seu irmão, e se tornou mais vigorosa com a chegada da manhã seguinte.

Helena dormiu às 2h. “A gente baixou a luz, baixou o volume do filme e deixou ela dormindo”, diz Adriana Boff, coordenadora de Artes Plásticas da Secretaria Municipal de Cultura, responsável por trazer a obra à capital gaúcha. 

Mesmo de madrugada, havia público presente. Às 10h, ela acordou e iniciou uma das sessões mais fortes, praticando tai chi chuan e manipulando uma espada no palco. 

Não é a primeira vez que Nuno usa o tempo de 24 horas em uma montagem. Em 2017, estreou, também no Festival de Arte Cidade Porto Alegre, “A Gente Se Vê por Aqui – Globo 24h”. No ano seguinte, o espetáculo abriu a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. 

O Festival de Arte Cidade tem 33 anos e já testemunhou momentos como um carro sendo destruído no estacionamento do Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre, na performance de Luiz Zerbini e Barrão.

Assim como o “Globo 24”, a destruição do carro se repetiu depois em São Paulo, na abertura da Bienal.
“O festival carrega esse propósito de experimentação. Vem para cá, experimenta, depois expande para outros lugares’”, diz a coordenadora.

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