'Não tínhamos comida, então cantávamos', diz sobrevivente do Holocausto que toca em SP

Aos 94 anos, Saul Dreier é o mais velho sobrevivente do genocídio em atividade musical

Lucas Brêda
São Paulo

Em uma primeira conversa, não dá para saber se Saul Dreier tem uma memória privilegiada ou se ele apenas contou a mesma história diversas vezes.

“Sou o mais velho sobrevivente do Holocausto a tocar música, com 94 anos de idade”, ele se apresenta, logo depois de ficar cerca de meia hora ininterruptamente narrando suas desventuras pelos três campos de concentração aos quais sobreviveu.

homem velho de óculos laranja tocando bateria
Saul Dreier se tornou baterista depois de sobreviver ao Holocausto - DIvulgação

Baterista e percussionista, Dreier está no Brasil para um show nesta terça (13), no auditório Elis Regina, no Anhembi, em São Paulo.

Ele comanda a cozinha da Holocaust Survivor Band, grupo focado em música klezmer, tradicionalmente tocada nas comunidades judaicas do leste europeu. O popstar israelense Gad Elbaz, também conhecido pela influência da música religiosa, apresenta-se no mesmo evento.

A música surgiu na vida de Dreier quando ele estava no primeiro campo de concentração ao qual foi submetido. O polonês tinha 14 anos quando teve início a Segunda Guerra Mundial —ou, como diz, “quando o mundo entrou em colapso”.

“Meu pai lutou no exército. Minha mãe, minha irmã e eu éramos as sobras”, recorda.

Antes de perder a irmã e a mãe, ele foi mandado a um dos guetos criados pelos nazistas para segregar os judeus. Depois, foi mandado a um campo comandado por Oskar Schindler, retratado no famoso filme de Steven Spielberg, “A Lista de Schindler”. “Éramos um grupo de 30 pessoas trabalhando em uma fábrica.”

A paixão pelo ritmo cresceu no polonês quando ele frequentava uma sinagoga no fim dos dias de trabalho. “Não tínhamos nem comida, então tínhamos que cantar”, diz. “Em uma dessas vezes, eu tinha duas colheres e faltava uma batida para o que estavam cantando. Peguei-as, comecei a bater e dei a eles a batida.”

Àquela altura, a música já era uma forma de sobrevivência para Dreier, então sem perspectiva de futuro. Ele foi um das cerca de 1.200 pessoas salvas por Schindler. “À noite, nosso trem saiu e chegou em Auschwitz, mas não saímos do trem. Eventualmente, descobrimos que estávamos voltando para a Polônia.”​

homem idoso de terno e gravata borboleta
Saul Dreier se tornou baterista depois de sobreviver ao Holocausto - Divulgação

Dreier então foi até outro campo de concentração, no qual trabalhava em uma pedreira, subindo e descendo 168 degraus enquanto carregava peso. “Era horrível. Muitas pessoas caíam pelos degraus”, lembra. “Depois de dois dias, percebi que aquilo iria me matar e decidi não ir mais à pedreira.”

O baterista só se viu livre dos nazistas quando foi a outro campo de concentração, este bombardeado pelo exército americano. Ele teve ferimentos na cabeça e no braços, além de gangrena. Um soldado americano o levou para hospital. “Eu estava com as mãos feridas de um jeito que não conseguia nem vestir uma roupa.”

O período tenebroso na vida de Dreier acabou quando ele foi levado pela Brigada Judaica, com outros jovens, à Itália. Nos cinco anos em que viveu no país –já em casas e não mais em campos de concentração–, ele aprendeu a tocar bateria.

“Precisavam de um voluntário para tocar piano e outro para a bateria”, diz. “Encontramos o voluntário para o piano e eu me candidatar para a bateria.”

Nas últimas décadas, ele vive em Nova York, quando, há cinco anos, decidiu montar a banda de sobreviventes do Holocausto. “Minha mulher me disse que eu estava louco”, ri o polonês. “Logo depois, eu estava tocando com uma orquestra em Las Vegas. Disse a mim mesmo: quero viajar o mundo e lutar contra o antissemitismo.”

Para saber mais detalhes, diz Dreier, o recado é simples. “Venha aqui em minha casa e posso continuar falando durante a noite inteira.”

Gad Elbaz & Holocaust Survivor Band

  • Quando 13/8, às 20h
  • Onde Auditório Elis Regina, Anhembi (av. Olavo Fontoura,1209)
  • Preço R$ 150 (inteira)
  • Link: http://tenyad.org.br/

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