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Resgate da obra de Silvina Ocampo joga luz sobre mulher vanguardista e liberal

Feminismo renovou interesse por escritora argentina que teve homens e mulheres como amantes

Sylvia Colombo
Buenos Aires

Os textos de Silvina Ocampo, que morreu em 1993, são habitados por crianças cruéis, memórias retorcidas de sua própria vida e de mulheres de atitudes distintas das convencionais da época. 

“Era uma escritora rara, esquisita. Não se encaixava tão bem na época, só que agora se encaixa perfeitamente. Até seu humor pode ser melhor entendido”, diz a escritora argentina Mariana Enríquez, que há pouco visitou o Brasil durante a Festa Literária Internacional de Paraty.

Enríquez é autora de “La Hermana Menor - Un Retrato de Silvina Ocampo” (Anagrama, importado), um ensaio biográfico da escritora, que será lançado no ano que vem no Brasil, pela Relicário. 

Ela concorda com o fato de que Silvina esteja tendo sua obra resgatada. “A renovação do movimento feminista na Argentina impulsionou o interesse por alguém que viveu de forma tão vanguardista. E há uma onda entre escritores argentinos jovens que têm um gosto pelo perverso muito presente na obra de Ocampo.”

A autora era a irmã menor da editora, tradutora e escritora Victoria Ocampo, uma das mulheres mais influentes da Argentina de então. 

Sua casa, chamada de Villa Ocampo, hoje um museu dedicado à literatura, era um ponto de encontro de escritores como Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e outros. Ali a irmã mais velha traduzia obras europeias, recebia artistas estrangeiros, promovia saraus e editava a célebre revista Sur. 

Silvina era a última de seis filhas. Tinha 13 anos a menos que Victoria, com quem tinha uma relação intensa, mas muitas vezes permeada por ciúmes intelectuais ou por críticas ao estilo de vida uma da outra. 

Silvina era bissexual, tinha um casamento aberto com Bioy Casares, casos extraconjugais com homens e mulheres —e talvez até com a mãe de Bioy, uma história que Enríquez considera que deva ser séria, embora não tenha encontrado evidências concretas. Mesmo com Bioy, Silvina viveu anos sem se casar, algo impensável para as mulheres do período. Há evidências de que teria formado um trio amoroso temporário com o marido e uma sobrinha menor de idade. 

“Victoria era liberal nos costumes também. Eles eram uma família rica, não religiosa, e essa aristocracia decadente na Argentina tinha um comportamento aberto. Victoria se divorciou e teve um amante. Mas, quando soube que Silvina estava fazendo sexo com a sobrinha de sangue, menor de idade, achou que erademais. E a criticou por isso.”

Outra das irmãs do meio, Clara, morrera na infância, de diabetes infantil. “Naquela época, era uma doença que degradava muito, e Silvina descreve a mudança de cores do rosto da menina. Este rosto reaparece em suas obras, azul, como uma imagem numa multidão. Considero um fato que influenciou muito a vida de Silvina”, diz Enríquez.

Apesar de ser casada com Bioy Casares, irmã de Victoria e a melhor amiga de Borges, Silvina não se alinhava intelectualmente com eles. “Era mais moderna e vanguardista em seus gostos artísticos.”

Até o caminho que fez para chegar à literatura foi diferente. Aos 26 anos, partiu para Paris para estudar pintura. Foi aluna de De Chirico. “Só que ela tinha amigos muito talentosos, como Xul Solar, e logo percebeu que não teria talento para seguir nas artes plásticas, então se voltou para a literatura, aí sim se encontrou.”

Outro ponto que a diferenciava do grupo a que pertencia era que gostava de jogar com a linguagem popular da região do Prata, com o chamado “voceo” —que marca a conjugação de verbos e a gramática dos países da zona. “Nem Borges chegou a isso, apesar do interesse pela vida do periférico em Buenos Aires. Todos escreviam num espanhol meio neutro. Ela é dos primeiros escritores argentinos a incorporar isso tão fortemente.”

Algo que os unia era o ardente antiperonismo. Como membros da elite, tinham horror à linguagem, aos modos, e à ascensão do líder popular Juan Domingo Perón, a quem chamavam de tirano.

A política, porém, não era de suas maiores paixões. 

Tanto que alguns de seus escritos, identificando o peronismo com o fascismo, eram bastante rasos do ponto de vista da argumentação ideológica. “Sua opinião política era, por inércia, a opinião de sua classe social”, diz Enríquez.

Mesmo que Silvina tenha a imagem de alguém mais misterioso, que talvez tenha vivido sob a sombra de seus amigos e familiares, a escritora teve uma vida muito produtiva. Escreveu e publicou de 1937 a 1988, foi traduzida para várias línguas e obteve reconhecimento, mas não uma grande popularidade. “Essa parece que vai começando a aparecer agora”, diz Enríquez.

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