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Romance satiriza farsa do sonho americano em tempos de Donald Trump

Em 'Lake Success', Gary Shteyngart narra jornada de bilionário, espécie de Gatsby do século 21, pela América profunda

Guilherme Magalhães
São Paulo

​​​A eleição de Donald Trump como 45º presidente dos Estados Unidos, em novembro de 2016, pegou de surpresa analistas, jornalistas, acadêmicos, gente do mercado financeiro, políticos e provavelmente você, leitor.

Não foi diferente com Gary Shteyngart, 47, escritor nascido na Rússia que emigrou ainda criança para Nova York, onde vive há mais de 40 anos. Mas não dá para dizer que ele não havia sido alertado.

Em junho daquele ano, Shteyngart embarcou num ônibus da Greyhound, a centenária empresa americana de viagens interestaduais. A ideia era chegar até a costa oeste e, no meio do caminho, conhecer a América profunda, algo além da “cidade de milionários” na qual se transformou Nova York, segundo o romancista.

Já fazia quatro anos que ele saía com investidores do mercado financeiro, milionários e até bilionários, com o intuito de reunir material para o seu quarto romance, “Lake Success”, publicado agora no Brasil pela editora Todavia.

“Eu queria escrever sobre como o mercado financeiro distorceu a América, criando problemas como a desigualdade”, afirma Shteyngart.​

“Quando comecei, em Nova York, eu realmente pensava que Hillary Clinton ia ganhar. Mas todo mundo no ônibus ficava me dizendo que não, que Donald Trump ia vencer. No final, eles estavam certos e eu, errado.”

A road trip é basicamente a mesma feita pelo protagonista da narrativa, o bilionário quarentão Barry Cohen, que decide, também em junho de 2016, ir atrás de Layla, ex-namorada dos tempos da faculdade. Enquanto isso, seu casamento desmorona e o FBI investiga uma transação suspeita do fundo de investimentos que ele administra.

Passando por cidades como Baltimore, Atlanta e El Paso, e estados tão diferentes quanto Mississippi e Califórnia, Shteyngart —e Barry— percebem que o discurso de Trump contra as elites, seja de Washington, Nova York ou Los Angeles, tem forte ressonância entre os americanos de classe média baixa.

Para o autor, a vitória de Trump é decorrência direta da crescente desigualdade social americana. “Pensei que com o colapso da União Soviética a Rússia ia ficar mais parecida com os Estados Unidos. Mas acho que o oposto aconteceu, os Estados Unidos ficaram parecidos com a Rússia: cleptocracia, ausência do Estado de Direito, 1% do país possui 40% da riqueza.”

A ideia do romance, no entanto, não era retratar a ascensão do hoje presidente. “Eu queria escrever sobre uma família”, disse Shteyngart, que enxergava a candidatura de Trump naquele momento como um símbolo dos tempos atuais.

E a família de Barry não vai nada bem. Ele embarca em sua jornada de redescobrimento pessoal pouco depois de o filho de três anos receber o diagnóstico de autismo, deixando nos ombros da mulher, Seema, e da babá filipina a responsabilidade pelos cuidados com a criança.

Se o humor mordaz que marca os livros anteriores de Shteyngart —três romances e um de memórias, “Fracassinho” (Rocco, 2014)— segue presente, uma diferença salta aos olhos: o personagem principal não é um imigrante russo.

“Achei que a forma mais fácil de fazer isso [escrever sobre as distorções geradas pelo mundo financeiro] era escrevendo sobre alguém que nasceu aqui”, disse o autor. “Não acho que haja um Barry Cohen em qualquer outro país, ele é definitivamente um personagem americano."

Não à toa, Barry idolatra F. Scott Fitzgerald e batiza seus fundos de investimento em homenagem aos romances do escritor americano que melhor traduziu o sentimento dos loucos anos 1920.

As referências à obra-prima de Fitzgerald, “O Grande Gatsby”, de 1925, estão por todo o romance de Shteyngart, com citações explícitas a locais e passagens da história do magnata que tenta reconquistar Daisy, seu amor da juventude, agora casada com o brutamontes Tom Buchanan, tudo isso narrado pelo aspirante a escritor Nick Carraway em meio à ostentação dos subúrbios nova-iorquinos num verão de 1922.

Barry, o bilionário de "Lake Success", cresceu na parte empobrecida de um desses subúrbios e se vê como um Gatsby dos tempos modernos, que superou uma infância de agruras, ascendeu por mérito próprio —nem tão próprio assim— e hoje é dono de US$ 2,4 bilhões em ativos. É o sonho americano em todo o seu esplendor e falsidade.

Mas, para o autor, Barry “tem um pouco de todos os personagens principais do romance, com exceção talvez de Daisy”. A mesma arrogância e insegurança de Tom, o mesmo desejo de Nick em relação à escrita.

Leonardo DiCaprio como Gatsby e Carey Mulligan como Daisy em cena de 'O Grande Gatsby', de 2013, adaptação do romance de Fitzgerald dirigida por Baz Luhrmann
Leonardo DiCaprio como Gatsby e Carey Mulligan como Daisy em cena de 'O Grande Gatsby', de 2013, adaptação do romance de Fitzgerald dirigida por Baz Luhrmann - Divulgação

Publicado há quase cem anos, “O Grande Gatsby” é, na avaliação de Shteyngart, “um romance ainda muito pertinente”. “Somos um país tão obcecado com a riqueza que a igualamos com algum tipo de moralidade. Ser pobre é visto como uma falha moral ou espiritual”, resume.

Isso nos leva de volta a Barry Cohen e Donald Trump. “Acho que Gatsby é um personagem bem trumpiano. Ele tem centenas de camisas, e isso basta para convencer pessoas de que você se deu bem na América. Por que mais elegeríamos alguém tão obviamente estúpido? Estávamos convencidos de que, como Gatsby, esse homem tinha muitas camisas e uma casa enorme.”

A vitória do republicano há três anos obrigou o autor a mudar alguns pontos do final da trama. Afinal, o até então “pano de fundo engraçado” se tornou “algo muito, muito maior”, disse Shteyngart, que agora trabalha na adaptação do romance para a televisão —a HBO comprou os direitos e já anunciou Jake Gyllenhaal no papel de Barry.

De certa forma, “Lake Success” acabou vítima de um efeito cada vez mais comum desde 2016. “O que Trump fez foi que ele invadiu as nossas vidas em um nível que não sobrou mais nada. Lembro que no primeiro ano era quase impossível ter uma conversa sobre qualquer coisa que não fosse ele.”

“Essa é a dificuldade em ser um romancista”, admite Shteyngart. “Estamos mais preocupados com famílias, amores, relacionamentos. Como criar os filhos, lidar com o envelhecimento dos pais. Mas agora é tão difícil escrever apenas sobre isso porque você acorda, liga o computador e Trump, Trump, Trump.”

Capa do romance 'Lake Success', do escritor americano Gary Shteyngart
Capa do romance 'Lake Success', do escritor americano Gary Shteyngart, publicado pela Todavia - Divulgação

Lake Success

  • Preço R$ 79,90 (448 págs.)
  • Autor Gary Shteyngart
  • Editora Ed. Todavia
  • Tradução André Czarnobai
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