Descrição de chapéu

Toni Morrison foi farol em mares turbulentos, diz Djamila Ribeiro

Para colunista da Folha, obra da escritora americana humaniza o outro em tempos de fingimentos

Djamila Ribeiro

“Se queres voar, tens que desistir da porcaria que te puxa para baixo.”

Toni Morrison, um grande farol para embarcações em mares turbulentos, deixou um legado de luz. Primeira mulher negra a ganhar o Nobel, marcou suas palavras em pessoas ao redor do mundo, sobretudo àquelas pertencentes a grupos oprimidos.

No Brasil, a leitura de Toni Morrison tem sido muito intensa e crescido a cada dia. “O Olho Mais Azul”, seu livro de estreia, marcou minha vida. 

Quando li a obra pela primeira vez, tinha 23 anos, havia acabado de sair da Casa de Cultura da Mulher Negra, uma organização de Santos, e estava como professora de cursinhos para a juventude negra. Tinha perdido meu pai e minha mãe, e meus ideais se confundiam com minha tristeza, com a falta de rumo. 

Ler Toni me guiou para transcendências fundamentais à época e a ela agradeço com reverência. Não tinha dúvidas de que sua leitura marcaria a vida de muitas pessoas e até hoje, todos os dias, recebo retornos de pessoas encantadas com a obra. Ler Toni é um oásis num mundo em que as pessoas fingem intensidade em vez de sentir.

A forma com a qual descreveu pessoas, sobretudo as mulheres negras, humanizando-as, me tocou profundamente. No “Olho Mais Azul”, são diversas passagens que me tocam. Uma costumo destacar em palestras: “O amor nunca é melhor do que o amante. Quem é mau, ama com maldade, o violento ama com violência, o fraco ama com fraqueza, gente estúpida ama com estupidez, e o amor de um homem livre nunca é seguro”. 

O que Toni quis dizer com isso? Penso que o sentimento nunca vai ser melhor do que a pessoa, por isso é preciso sempre se cultivar, aprender e crescer como ser humano. O amor, a empatia e a fraternidade dependem da construção política e afetiva para serem livres e emancipadores. 

Recentemente li “Voltar para Casa”, um de seus livros mais recentes. Mal sabia que semanas depois nos despediríamos dessa brilhante autora, que tantos ensinamentos deixou. 

Nesse livro, a personagem odiada pela avó, enganada pelo marido e ansiosa para sair da pequena cidade em que nasceu recebe um conselho inspirador que vale para todas as pessoas de grupos sociais oprimidos que buscam pela liberdade num mundo cujos sistemas impõem barreiras quase intransponíveis: 

“Olhe para você. Você é livre”, escreveu a autora. “Nada nem ninguém é obrigado a te salvar, só você mesma. Plante a sua própria terra. Você é moça e mulher, e as duas coisas têm sérias limitações, mas você é uma pessoa também. Em algum lugar aí dentro de você está essa pessoa livre de que eu estou falando. Encontre-a e deixe que ela faça algum bem nesse mundo.” 

Aos poucos, vou lendo as obras de Toni Morrison. Encontro a paz, cuido de mim e reflito sobre os ensinamentos de quem tinha o dom das palavras e de trazer personagens tão algozes quanto humanos, tão oprimidos quanto desbravadores pela transcendência rumo à liberdade. 

Tenho “Amada”, livro pelo qual foi muito premiada, para ler em breve. Vou passar boas tardes de domingo lendo “Sula”, outras noites lendo “Jazz”. Provavelmente conversarei com amigas que amam ler Toni tanto quanto eu e munidas de nossos livros gastos. 

Os encontros com a profundidade oceânica de Toni Morrison ainda têm muitos outros capítulos diante do vasto campo de ensinamentos deixados. Que esse belo “voltar para casa” da autora aos seus ancestrais nos inspire a melhorarmos como humanos. Obrigada, Toni Morrison.

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