Descrição de chapéu
Cinema

Vácuo na Cultura pode levar a ascensão de arte clássica liberal

Grupo ultraconservador Cúpula Conservadora das Américas vem se aproximando da pasta

Ana Paula Sousa

Antes de sua barulhenta demissão na semana passada, Henrique Pires, ex-secretário especial da Cultura, pouco havia falado. Mais do que isso: pouco havia feito. Pires chegou ao cargo pelas mãos do ministro da Cidadania, Osmar Terra, com quem trabalhava havia três anos. 

Apesar de ter atuado na área cultural no município gaúcho de Pelotas, Pires não tinha, até assumir a pasta, maior interlocução com as lideranças do setor. Ao tomar posse, ele se mostrou aberto a ouvir quem o procurava. Mas, apesar de afável no trato e cuidadoso na escuta, parecia não ter a força ou a disposição necessárias para levar as demandas adiante. 

Ou seja, a saída de Pires parece importar mais pelo contexto no qual se deu —o truculento cancelamento de um edital voltado em parte a produções televisivas com temática LGBT— do que por sua atuação. Pires pouco fazia. Mas o fato de ele ser um liberal afeito aos ritos públicos e aos princípios da liberdade de expressão não deixava de ser um alento.

De acordo com esses parâmetros, seu substituto, como interino, José Paulo Soares Martins, até então secretário de Fomento e Incentivo à Cultura, é um bom nome. Ex-diretor do Instituto Gerdau e da Fundação Iberê Camargo, Martins estava na Secretaria de Fomento desde 2016 e, além de se mostrar aberto ao diálogo, conhece a política cultural para além dos memes sobre a Lei Rouanet. 

O receio, entre aqueles que ainda tentam —quase sempre dando com os burros n’água— estabelecer um diálogo com o governo, é que, para o lugar de Pires, acabe indo alguém ligado ao grupo ultraconservador que vem se aproximando da pasta, a Cúpula Conservadora das Américas.

A Cúpula é uma organização de extrema direita que realizou seu primeiro encontro formal no fim de 2018, em Foz do Iguaçu, no Paraná. No evento, que contou com a presença de Eduardo Bolsonaro, falaram sobre a “hegemonia cultural” da esquerda. 

Pois esse grupo, que defende a “arte clássica liberal” (sic), vem rondando a Secretaria Especial da Cultura e tem interlocução direta com Terra. 

O Ministério da Cidadania reporta, no site, um encontro de Terra com membros da Cúpula Conservadora das Américas para “debater projetos aprovados por meio da Lei do Audiovisual” e o “fomento à produção de conteúdos que destaquem símbolos nacionais, o patriotismo e a preservação da família”. 

Nesse encontro, ocorrido em junho, uma representante da Cúpula falou sobre o papel da Secretaria Especial da Cultura para a “valorização do belo e da arte clássica —tanto no cinema quanto no teatro”. 

A referência à Lei do Audiovisual não tem muito sentido porque, nesse caso, a escolha de projetos não cabe ao governo, mas às empresas patrocinadoras. Não é, porém, difícil supor que a fala dissesse respeito, entre outras coisas, aos projetos aprovados no edital cuja suspensão serviu de estopim para a saída de Pires.

 O secretário especial de Cultura do governo federal, Henrique Medeiros Pires
Henrique Pires, que pediu demissão do cargo de secretário especial de Cultura do governo federal - Ronaldo Caldas/Divulgação

Para esse grupo, filmes, livros, peças e exposições, além de ameaçar os valores da família, cooptam mentes para o comunismo. E o que podia soar como delírio, vai, semana após semana, se materializando em baixas, editais e ações. 

Pouco depois da demissão do secretário, um grupo ligado ao governo apareceu, num vídeo, relatando uma visita de “cunho cultural” à Cinemateca Brasileira, em São Paulo, para anunciar uma mostra de filmes ligados ao Exército. 

O general que se apresenta como curador da Primeira Mostra de Filmes Militares, que incluirá “filmes antigos”, dá a data do evento e diz que ele incluirá “trilhas sonoras da Orquestra Sinfônica Militar”. O pedido para a realização da mostra foi feito diretamente pelo governo à superintendência da Cinemateca.

Em meio a isso tudo, alguns criadores e produtores, sobretudo do audiovisual, seguem tentando dar ênfase ao discurso econômico sobre a cultura. Pensam que mostrar que o setor gera emprego e renda seja a melhor maneira de sensibilizar um liberal. Mas quantos liberais se manterão na ala cultural do governo?

Afinal, quanto mais Bolsonaro e os ultraconservadores pregam sobre cultura, mais as discussões se afastam da política cultural para se fechar no terreno da ideologia e das questões morais.

Ana Paula Sousa

Jornalista, doutora em sociologia da cultura pela Unicamp

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.