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Cinema

Ambientação original e terror à luz do dia não salvam 'Midsommar' do apelo restrito

Novo filme de Ari Aster mostra grupo de estudantes que decide acompanhar celebrações do solstício de verão

Inácio Araujo

O Mal Não Espera a Noite - Midsommar

  • Classificação 18 anos
  • Elenco Florence Pugh, Jack Reynor e Vilhelm Blomgren
  • Produção EUA/Suécia/Hungria, 2019
  • Direção Ari Aster

Em “O Mal Não Espera a Noite - Midsommar”, um grupo de estudantes dos EUA excursiona à Suécia para apreciar o solstício de verão em uma comunidade de que faz parte um dos rapazes, Pelle. Diga-se logo de saída: ao contrário do habitual no subgênero de terror “jovens em perigo”, aqui não são adolescentes desprevenidos, mas estudantes que se preparam para o doutorado.

Dois deles, aliás, começam o doutoramento em antropologia, o que torna ainda mais atraente a viagem: estudar um grupo que vive isolado, com costumes e escrita particulares, nesse momento tão especial do ano, num país europeu. Tudo torna a viagem mais atraente.

Mas, ai ai, basta chegar ali para notar que alguma coisa não vai bem. Os hábitos locais são bem constrangedores, apesar da aparência tão simpática de todos eles. O primeiro choque nos introduz ao quanto são estranhos esses hábitos. Algo parece errado nesse grupo de gente que se veste de branco, adora o sol e os alucinógenos.

Na mesa de refeições, todos se acomodam à espera de um casal que, parece, chefia o grupo. Eles almoçam. Depois, os anciãos são conduzidos em liteira até uma montanha, de onde um após o outro se joga para suicidar-se. O tom muda de repente: a até então delicada encenação nos joga na cara, de supetão, o rosto destruído da mulher. Com o homem é um pouco pior: ele não morre, apesar da queda, então um outro sujeito mete-lhe a marreta no crânio.

Os jovens americanos estão chocados, mas a explicação de Pelle os tranquiliza: assim como nós mandamos os nossos velhos para o asilo, aqui eles se matam em determinada idade. Entendem que a vida é um ciclo. Vão para a morte felizes.

Ok. Explicação dada. Mas que dizer do filho de uma união endogâmica, visivelmente monstruoso, a quem cabe escrever o livro sagrado do pessoal? Não, a coisa vai muito mal e não espera a noite, já que o solstício de verão é o dia mais longo do ano. Mas à noite também coisas razoavelmente horríveis acontecerão aos nossos jovens heróis.

Destaque-se, do ponto de vista positivo, o original da ambientação. Aquela gente branca e fraternal, aberta a tudo, mas com rituais tremendamente estritos não é coisa que vê com frequência. Se fossem negros haitianos, muçulmanos ou índios, gente voltada à magia, vá lá, estaríamos no território habitual do gênero.

No entanto, essa incursão aos nórdicos termina por nos conduzir a uma antiga mensagem de inúmeros filmes, entre eles terrores para adolescentes: nunca se meta com estranhos; é deles que vem o perigo.

A moral é o menor dos problemas do filme escrito e dirigido por Ari Aster. Bem maior talvez seja o fato de dedicar-se exageradamente à ambientação, deixando em segundo plano os seus protagonistas, com os quais o espectador termina por ter pouca empatia. Com isso, quando o mal trata de recair sobre eles, seja noite, seja dia, não sofremos por eles. E, por conseguinte, não sofremos por nós.

Com nenhum apelo ao sobrenatural e pouco à monstruosidade, o apelo do filme é bastante restrito, assim como seu alcance.

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