Artista explora a relação bipolar do Brasil com a sua própria memória

Giselle Beiguelman aborda história a partir do viés do esquecimento, em ensaios textuais e visuais de nova obra

São Paulo

Pode-se dizer que a memória, em suas várias acepções, da mais corriqueira, a de lembrança do passado, até a digital, é o tema da vida inteira da artista e pesquisadora Giselle Beiguelman.

Em seu novo livro, “Memória da Amnésia: Políticas do Esquecimento” ela encara o tema pelo seu oposto. 

Para Beiguelman, que é doutora em história e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, o país tem “uma relação bipolar com a memória”. Por um lado, diz, proliferam “museus e memoriais”. Por outro, temos uma “incapacidade de lidar com o passado”.

Essa incapacidade perpassa os cinco ensaios textuais e visuais que conformam o livro. Eles são decorrentes de projetos elaborados ao longo da trajetória artística de Beiguelman, em parte retrabalhados em sua tese de livre-docência.

Nela, o capítulo “Políticas do Esquecimento” agrupa quatro perguntas: “o que você lembrou de esquecer?”, “o que você esqueceu de lembrar?”, “o que você lembrou de lembrar?” e “o que você esqueceu de esquecer?”.

Essas questões norteiam o trabalho de Beiguelman, mesmo quando não estão literalmente formuladas. 

Após se doutorar, Beiguelman trabalhou por dez anos no departamento de patrimônio histórico da Eletropaulo, uma “megacoleção de tudo” no que diz respeito à história da cidade de São Paulo.

Contudo foi só em 2014, com quase duas décadas de trajetória artística, que ela se debruçou sobre o tema, no trabalho do qual nasce o primeiro ensaio do livro, “Beleza Convulsiva Tropical”, realizado para a 3ª Bienal da Bahia.

Até então trabalhando com arte digital, Beiguelman deparou ali com uma impossibilidade material: o Arquivo Público do Estado da Bahia, onde deveria trabalhar, “não é que não tinha rede; se acendesse a luz, poderia pegar fogo”.

No trabalho, abordou a história da Quinta do Tanque, o antigo mosteiro de jesuítas tornado abrigo para doentes de hanseníase, abandonado por 50 anos e feito arquivo público na década de 1970.

Um arquivo onde os pesquisadores tinham de trabalhar do lado de fora, à luz do dia. Um lugar em tudo precário para armazenar a memória.

O esquecimento toma corpo também nas estátuas estocadas no depósito do Departamento do Patrimônio Histórico da Prefeitura de São Paulo, um galpão no Canindé, na região central da cidade.

Para “Memória da Amnésia”, Beiguelman desentranhou de lá monumentos esquecidos, levando-os para serem expostos —não de pé, mas deitados, como documentos—, no Arquivo Histórico de São Paulo. 

Amontoados como as estátuas, computadores e outros objetos do patrimônio, se não histórico, público, jaziam no Canindé. “Não é a imagem que você tem de um arquivo; é um lixão da história.” 

O esquecimento se veste de vertigem em “Já É Ontem?”, ensaio realizado ao longo de oito anos das obras do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro.

A velocidade das obras tornava o presente algo intangível. “Passava duas semanas sem ir ao Rio, quando chegava já estava tudo quebrado.”

“Era tudo tão alucinante”, sublinha Beiguelman, “que para construir um museu tinha de ser um Museu do Amanhã”.

As fotos que fez foram alteradas com uma linguagem que deriva do “glitch”, a colorida mensagem visual que denota erro de leitura das máquinas.

O livro estava pronto com o quarto ensaio, “Museus das Perdas para Nuvens de Esquecimento”, no qual Beiguelman recupera em forma impressa “O Livro Depois do Livro”.

Criado em 1999, esse trabalho de “net art” se debruçava sobre as condições de leitura na rede; paradoxalmente, ele é hoje ilegível, diante das mudanças tecnológicas.

Mas eis que, há um ano, com o livro “nos últimos retoques do design”, ardeu o Museu Nacional. O quinto ensaio, “Beleza Compulsiva Tropical”, se debruça sobre o fato. Uma espécie de epílogo, é, na definição da autora, “uma reflexão sobre a catástrofe do século 21”. No nosso tempo, as ruínas cedem lugar aos escombros.

Memória da Amnésia: Políticas do Esquecimento

  • Quando Debate entre a autora e Márcio Seligmann-Silva, seguido de sessão de autógrafos, nesta qui. (12), às 19h30, na Livraria da Vila - r. Fradique Coutinho, 915
  • Preço R$ 95 (248 págs.)
  • Autor Giselle Beiguelman
  • Editora Sesc São Paulo

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