Bienal de arquitetura se debruça sobre cotidiano e aposta em novos formatos

Em sua 12ª edição, evento que ocupa o Sesc 24 de Maio e o CCSP terá de vídeos a salão de cabeleireiro

Francesca Angiolillo
São Paulo

Do que é feito o cotidiano? As respostas são tantas quantas são as mínimas ações que empreendemos todos os dias ou os objetos que tocamos, usamos e descartamos. Como dar materialidade ao que se vive todos os dias?

O desafio não era simples e, no entanto, foi autoimposto pelos curadores da 12ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, que tem início nesta semana.

O tema da mostra, "Todo Dia", não foi proposto pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-SP), que organiza o evento, mas pelo trio que, com a ideia de abordar o banal, venceu o concurso de curadoria.

Os brasileiros Vanessa Grossman, 38, e Ciro Miguel, 39, e a francesa Charlotte Malterre-Barthes, 40, têm em comum o laço com a ETH, escola suíça de arquitetura onde os dois últimos dão aulas e a primeira faz seu pós-doutorado.

O "fator suíço" gerou, à época, um recurso por parte de outros participantes, pois o edital previa que os concorrentes vivessem no país.

Ao fim, o júri manteve a escolha, e o trio trabalhou por um ano, em parte à distância, para definir o programa das duas exposições da mostra e a programação de debates.

Grossman explica que o trio definiu o mote da proposta pensando que "existe uma reincidência de temas" que hoje ocupam a mente dos arquitetos e que "podiam ser decantados e chegar ao cotidiano".

"Nossa geração herdou um mundo já construído, com o qual os arquitetos têm de lidar", opina Miguel, como uma explicação para essa reincidência do pequeno, do banal. 

Para traduzir esses temas em exposição, definiram três eixos —relatos do cotidiano, materiais do dia a dia e manutenções diárias. No primeiro, entram, por exemplo, relações sociais no espaço urbano; no segundo, a sustentabilidade; no terceiro, cabem desde os cuidados de si até a preservação de edifícios.

Dois "edifícios-manifesto" ou "máquinas urbanas", no dizer do trio, foram escolhidos para receber as mostras —o Sesc 24 de Maio, projeto de Paulo Mendes da Rocha, e o Centro Cultural São Paulo, de Eurico Prado Lopes e Luiz Telles.

Fernando Túlio, 32, presidente do IAB-SP, diz que, para ser relevante, a bienal tem de "fomentar estratégias para lidar com a realidade" e tocar "um público amplo, sair das amarras de um debate ligado à categoria, para que as pessoas reconheçam alternativas para requalificar sua vida".

Visando essa ampliação, no Sesc, onde estarão os trabalhos dos convidados da curadoria, o trio promoveu a criação do que chamaram "dispositivos", obras que procuram ativar percepções sobre os usos do prédio e suas relações com o entorno.

Elas estão espalhadas pelo prédio —"mas nos espaços mais banais, não no espaço expositivo", frisa Malterre-Barthes. Assim, o visitante terá contato com a mostra, esteja ele procurando ou não por isso. 
As imagens que ilustram esta página, por exemplo, vêm do trabalho do antropólogo brasileiro Hélio Menezes com os sul-africanos do escritório Wolff Architects.

Os penteados afro da Galeria do Reggae, vizinha ao Sesc, decoram uma estrutura flutuante entre os dois prédios. No saguão do Sesc, será montado um salão de cabeleireiro.

Imagem do projeto 'Nova República', do antropólogo brasileiro Hélio Menezes e dos arquitetos sul-africanos Wolff Architects, que explora a proximidade entre o Sesc 24 de Maio e a galeria Presidente, conhecida como Galeria do Reggae, onde há lojas de moda salões de beleza afro -- um salão do tipo será montado na praça de entrada do Sesc
Imagem do projeto 'Nova República', do antropólogo brasileiro Hélio Menezes e dos arquitetos sul-africanos Wolff Architects, que explora a proximidade entre o Sesc 24 de Maio e a galeria Presidente, conhecida como Galeria do Reggae, onde há lojas de moda salões de beleza afro -- um salão do tipo será montado na praça de entrada do Sesc - Divulgação

No CCSP, estarão expostos 74 trabalhos de 26 países, selecionados entre 710 que responderam à chamada pública promovida pelos curadores.

Na seleção, entram desde imagens de projetos até muitos vídeos, "linguagem completamente abraçada pelos arquitetos", diz Grossman, "que abarca a dimensão temporal".

Confira alguns debates da 12ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo

10.set, no Sesc 24 de Maio

  • Às 17h, palestra do espanhol Andrés Jaque (Office for Political Innovation, Madri/Nova York)
  • Às 18h, debate entre Jaque, Fraya Frehse (SP), Geisa Garibaldi (Concreto Rosa, Rio), Marta Moreira (MMBB, SP) e Hélio Menezes (Salvador) 

13.set, no CCSP

  • Às 17h, palestra de Beatriz Colomina, professora em Princeton e autora de ‘The Century of the Bed’
  • Às 19h, debate com Colomina, Gabriela de Matos (Arquitetas Negras, BH), Alexandre Delijaicov (SP), Javier Rojas (Argentina) e Mario Gandelsonas (Argentina/EUA)

Veja a programação de palestras em www.iabsp.org.br/bia/programacao-xii-bienal

 

Todo Dia

  • Quando Ter. a sáb., das 9h às 21h; dom. e fer., das 9h às 18h. Abertura na ter. (10), às 11h. Até 29/9.
  • Onde Sesc 24 de Maio - r. 24 de Maio, 109
  • Preço Grátis

Arquiteturas do Cotidiano

  • Quando Qua. a dom., das 10h às 18h; ter. das 10h às 20h. Abertura na sex. (13), às 16h. Até 8/12.
  • Onde CCSP - r. Vergueiro, 1.000
  • Preço Grátis

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