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Carta ao Pai... à mãe e ao filho

Três livros, um clássico e dois recentes, abordam as relações dentro do núcleo familiar

Tati Bernardi

Um livro puxa o outro. Três livros espetaculares (um clássico e duas obras recentes), guardados em minha memória como dos mais belos socos no estômago. Todos com menos de 200 páginas, que é para o leitor mais atribulado ou preguiçoso não ter nenhuma desculpa.

Um relato autobiográfico brilhante sobre um pai extremamente severo e pouco carinhoso; uma ficção da vencedora do Pulitzer sobre uma relação impossível, distante e, naquele momento, confinada a um quarto de hospital; e, por último, uma autoficção (essa é a minha aposta, já que nunca saberemos o que tem de verdade em um livro e é sempre uma ideia idiota perguntar isso a um escritor) sobre um pai desesperado em encontrar, de todas as formas possíveis, seu filho adotivo.

(da esq. para dir.) 'Carta ao Pai', de Franz Kafka, 'Meu Nome é Lucy Barton', de Elizabeth Strout e 'Pretérito Imperfeito', de Bernardo Kucinski - Tati Bernardi

Em “Carta ao Pai”, Franz Kafka relembra como era difícil estar ao lado de um verdadeiro homem: “[…] na força, na saúde, no apetite, na potência da voz, no dom de falar, na autossatisfação, na superioridade diante do mundo, na perseverança, na presença de espírito, no conhecimento dos homens, em certa generosidade”.

Era complicado, sobretudo, trocar de roupa em frente ao pai: “[...] é que eu já estava esmagado pela simples materialidade do teu corpo. Recordo-me, por exemplo, de que muitas vezes nos despíamos juntos numa cabine. Eu magro, fraco, franzino, tu forte, grande possante. Já na cabine eu me sentia miserável e na realidade não apenas diante de ti, mas diante do mundo inteiro, pois para mim tu eras a medida de todas as coisas”.

Mais para o final do livro, o autor explica por que nunca conseguiu se casar. A obra, que lembra o tempo todo o fim de uma longa e difícil análise freudiana, após anos dissecando um enraizado complexo de Édipo, expõe aqui uma de suas melhores passagens e conclusões.

“O casamento é, por certo, a garantia da mais nítida autolibertação e independência. Eu teria uma família, o máximo que em minha opinião pode ser alcançado, ou seja, o máximo que também tu alcançaste; eu estaria à tua altura e todas as velhas e eternamente novas vergonhas e tiranias passariam a ser apenas história. Com certeza seria fabuloso, mas é justamente aí que está o problema. E, demais, tanto assim não se pode alcançar. É como se alguém estivesse aprisionado e tivesse não apenas a intenção de fugir, o que talvez fosse alcançável, mas também e na verdade ao mesmo tempo, a de transformar reformando, para uso próprio, a prisão num castelo de prazeres. Mas se ele foge, não pode fazer essa reforma, e se ele faz a reforma, não pode fugir. Se eu quiser me tornar independente, na relação especial de infelicidade em que me encontro contigo, preciso fazer alguma coisa que não tenha a menor ligação possível com a tua pessoa; o casamento é, sem dúvida, o que há de maior, e confere a autonomia mais honrosa, mas também está, ao mesmo tempo, na mais estreita relação contigo. Querer escapar disso tem, portanto, algo de loucura, e cada tentativa é quase punida com ela.”

No livro “Meu Nome é Lucy Barton”, de Elizabeth Strout, a personagem Lucy, nascida em uma família miserável e cujos pais permitiam que fosse acusada de fedida pelos coleguinhas e a trancavam em uma caminhonete quando não podiam cuidar dela, é hoje mãe de duas meninas e uma escritora bem-sucedida. Lucy está internada há semanas em um hospital pelas complicações de uma cirurgia de apêndice e sua mãe, distante por anos, aparece para lhe fazer companhia.


“Eu disse de repente, enquanto as luzes começavam a se acender em toda a cidade: ‘Mamãe, você me ama?’.

Minha mãe balançou a cabeça, olhou para as luzes. ‘Wizzle, pare com isso.’

‘Vamos, mamãe, me diga.’ Comecei a rir e ela começou a rir também.

‘Wizzle, pelo amor de Deus.’

Sentei feito uma criança, batendo palmas. ‘Mãe! Você me ama, me ama, me ama?’

Ela abanou a mão para mim, ainda olhando para a janela. ‘Garota boba’, ela disse, balançando a cabeça. ‘Sua garota boba, boba.’

Deitei de novo e fechei os olhos. ‘Mãe, estou de olhos fechados.’

‘Lucy, pare agora com isso.’ Ouvi riso em sua voz.

‘Vamos, mãe. Estou de olhos fechados.’

Houve silêncio por algum tempo. Eu estava feliz. ‘Mãe?’, falei.

‘Quando os seus olhos estão fechados’, ela disse.

‘Você me ama quando os meus olhos estão fechados?’

‘Quando os seus olhos estão fechados’, ela disse. E nós paramos com a brincadeira, mas eu estava tão feliz…’”


Em “Pretérito Imperfeito”, de Bernardo Kucinski, o pai adotivo, exaurido, escreve à mão para o filho (“cada palavra sopesada”) uma carta sem remetente “para não ser respondida”. Na primeira página do livro, em um dos começos mais pungentes da literatura confessional, o autor escreve: “Cansado de me alarmar a cada tinir do telefone, cansado de reaver esperanças para em seguida perdê-las, optei por perder de vez a ele, ainda que filho único”.

Ainda sobre a carta que manda para o filho:

“Minha carta é uma rejeição amena, como a dos japoneses que põem uma mochila às costas do filho imprestável e, sem intento de punir, ordenam que corra o mundo […] Tampouco o expulsei propriamente da casa. Ele se encontrava distante havia mais de dez anos, do outro lado do oceano. Partira, isso sim, às carreiras, na esperança de que em outras terras abandonaria a busca insana de um paraíso artificial. Não se tratava de excluí-lo do convívio, e sim de dentro de mim. Só o consegui racionalizando. Daí a ideia da carta. Destituí-lo de meus afetos por escrito, sem vociferar, argumentando. Carta solene. Uma epístola. Disse a ele que nunca lhe impingimos um futuro, como fazem certos pais, embora de nossas palavras e gestos possa ter inferido esse ou aquele caminho, como é inevitável na infância. Desejávamos apenas que possuísse qualidades. Não pequenas virtudes próprias do temperamento, como prudência ou modéstia, ou atributos inatos, como inteligência ou destreza, e sim valores que têm a ver com consciência e vontade, próprios do homem e apenas dele. Valores morais que ajudam a distinguir o correto do errado em cada circunstância e a agir conforme. Enfim, que fosse um homem de caráter. […] A carta é uma alforria que tardava. A minha alforria.”

Anos depois, tomada a devida distância para que essa intensa e castigada relação virasse apenas carinho e consideração, o pai, junto da mãe, visita o filho.

“Na nossa frente, ficou só de cuecas e se trocou, sem nenhum constrangimento. Foi um momento interessante, porque a ausência de pudor expressava sua condição de nosso filho, da criança a quem déramos banho e que pegávamos no colo. Vi então que estava mais magro do que sempre fora. Um corpo enxuto de mestiço de negro. Mas sem nenhuma reserva muscular ou de gordura. Senti muita pena e vontade de ajudar.”

Carta ao Pai

  • Preço R$ 16,90 (112 págs.)
  • Autor Franz Kafka
  • Editora L&PM Pocket

Meu Nome É Lucy Barton

  • Preço R$ 35,68 (160 págs.)
  • Autor Elizabeth Strout
  • Editora Companhia das Letras

Pretérito Imperfeito

  • Preço R$ 42,90 (152 págs.)
  • Autor B. Kucinski
  • Editora Companhia das Letras

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