Descrição de chapéu

Céu investe num som frio em disco com pegada eletrônica

'Apká!' tem um conceito consistente e deixa que programações conduzam os arranjos e contenham força melódica

Luiz Fernando Vianna

Apká!

  • Onde Disponível nas plataformas digitais
  • Autor Céu
  • Gravadora Slap/Som Livre

Com o álbum “Apká!” (som feito por seu filho), Céu dá, aos 39 anos, novos passos em direção ao que se pode entender como maturidade existencial e artisticamente conceitual. Mas a sonoridade esfria.

Fica mais fria porque reforça a aposta nas programações eletrônicas a conduzir os arranjos e conter forças melódicas.

Um exemplo é “Pardo” (Caetano Veloso), que poderia ser um samba-reggae dançante, mas não chega a ser. Ou “Nada Irreal” (Céu e Hervé Salters), que tem jeito de reggae, mas ficou sem o calor de um.

Não significam falhas, mas opções. Menos interessantes para quem prefere caminhos melódicos aos tecnológicos, mas compreensíveis.

Não haveria por que ela fazer o que já fez. “Manemolência”, do já distante CD de estreia, de 2005, “Baile de Ilusão” e outras músicas de alta vivacidade não estão na pauta agora.

“Apká!” não deixa de ser um desdobramento de “Tropix” (2016). As programações do baterista e arranjador —e marido de Céu— Pupillo são o eixo. Hervé Salters (teclados), Lucas Martins (baixo) e Pedro Sá (guitarra) se mantêm no time.

As quatro primeiras faixas fazem, nas letras, uma espécie de passagem do trabalho anterior para o atual. O clima ainda é um pouco sombrio, com dores de amor. Isso fica mais claro na primeira e na quarta: “Off (Sad Siri)” e “Corpocontinente”. Nesta, Céu apresenta mais um de seus achados poéticos: “Vou te relembrar como se faz uma saudade”.

Em “Coreto”, single do álbum, a narradora já é mais forte e o som, um pouco mais dançante. E “Forçar o Verão” é um recado ao Brasil de hoje: “No céu azul anil/ E o tempo fechou/ E ninguém viu/ Derrubando a rima/ Fez-se então frio no Brasil”.

“Pardo” é um Caetano inédito e de primeira linha, com jogos de palavras que combinam cores e sexos. Não parece casual que esteja no meio do disco, galvanizando o resto.

“Nada Irreal” e “Make Sure Your Head Is Above” (Fernando Almeida, o Dinho) abrem o “segundo lado” do álbum, com versos entoados por alguém mais confiante ou, como se diz hoje, empoderado.

A superposição de voz, guitarras (o convidado Marc Ribot) e beats (Pupillo) em “Make Sure...” sintetiza as 
ideias sonoras do trabalho.

Com a palavra “céu” aparecendo quatro vezes, “Fênix do Amor” é autobiográfica. Marca a transição de quem “era só uma menina” —possível citação de “Romance Ideal” (Herbert Vianna)— e que “trocou de pele para aprender a ser”.

A mulher de “Rotação” é dona de si. E a de “Ocitona” (parceria com Salters e Pupillo) é a mãe de Antonino, seu segundo filho e cujo nascimento moveu a proposta de “Apká!”. Canção que comove, mesmo com as programações.

“Eye Contact” dá esperança, ao final, de que olhar, alma e sentimentos não deixarão de ter lugar nos passos de Céu.

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