Cicatrizes das Farc e da violência cotidiana contaminam arte na Colômbia

Jovens artistas trazem temas um pouco apocalípticos para suas obras, diz curador

João Perassolo
Bogotá

Para dar um fim a seis décadas de violência, o governo colombiano e os guerrilheiros das Farc assinaram um acordo de paz em agosto de 2016.

O combinado foi que os cerca de 13 mil ex-combatentes desmobilizados seriam julgados por um tribunal que concede penas mais brandas em relação à Justiça comum, além de terem direito a dez assentos no Congresso. Em troca, os guerrilheiros largaram as armas.

O acordo ficou com uma imagem internacional positiva, garantindo até um Nobel da Paz para o ex-presidente Juan Manuel Santos.

Mas dentro do país, integrantes da comunidade das artes se posicionam de maneiras distintas sobre este momento histórico pelo qual passa a Colômbia. Artistas e curadores são mais pessimistas, enquanto agentes do mercado parecem esperançosos. 

Jovens artistas “trazem temas um pouco apocalípticos” para suas obras, diz o curador Wilson Diaz, do coletivo Helena Producciones, de Cali. Os realizadores se preocupam com o futuro “pensando a partir do presente”, completa Claudia Patricia Sarra. 

Diaz, Sarra e os outros membros do Helena Producciones selecionaram 27 nomes colombianos com menos de 40 anos, todos ainda sem representação comercial, para uma mostra que aconteceu junto à feira de galerias ArtBO.

O apocalipse a que se referem os curadores aparece, por exemplo, na obra “Fashion en la Selva”, de Tatyana Zambrano. A artista expôs joias banhadas a ouro carregadas de referências a ícones das Farc, como um colar cujo pendente traz o nome de Mono Jojoy, que foi um dos mais importantes líderes da guerrilha. 

Ao glamorizar o movimento e torná-lo um ícone fashion, “a artista fala de como tendemos a deixar superficiais os conflitos, de banalizar as coisas”, diz Sarra. Assim, Zambrano tira do espectador a capacidade de se impressionar.

Também na mesma mostra, Susana Ordoñez tematizou a violência cotidiana em uma série de peças esculpidas com açúcar queimado —elas reproduzem as pistolas e metralhadoras mais usadas no último ano em Cali, a cidade com os maiores índices de assassinato da Colômbia. A escolha do material não foi por acaso, já que a cana de açúcar é o principal produto da região e item essencial da cesta básica dos mais pobres.

A desesperança que dá o tom da jovem produção do país não incomoda María Paz Gaviria, diretora da ArtBO. “Estamos felizes que isso [os conflitos] está refletido na feira”, afirma. Para ela, seria uma maneira de fazer o público que vai ao evento pensar sobre a situação, criando cidadãos críticos.

A Colômbia é marcada pela onipresença da violência, seja com as Farc ou com os cartéis em Cali e Medellín. A capital, Bogotá, frequentava os noticiários nos anos 1990 com explosões de carros-bomba.
Mesmo com o país bastante pacificado, os ecos do passado se fazem ouvir até hoje. A presença de policiamento nas ruas é ostensiva, e para acessar o pavilhão da ArtBO se passa por duas revistas de bolsa e detectores de metal.

Para o mundo das artes, talvez a maior lembrança dos conflitos seja o espaço Fragmentos, desenhado por Doris Salcedo. A artista fundiu 37 toneladas de armas entregues pelos ex-guerrilheiros das Farc para construir o piso do lugar. No processo, teve ajuda de vítimas de violência sexual por parte de ex-combatentes.

Espaço Fragmento, da artista colombiana Doris Salcedo, cujo piso foi feito a partir do derretimento de 9 mil armas entregues pelas Farc depois do acordo de paz com o governo colombiano
Espaço Fragmento, da artista colombiana Doris Salcedo, cujo piso foi feito a partir do derretimento de 9 mil armas entregues pelas Farc depois do acordo de paz com o governo colombiano - Juan Fernando Castro/Divulgação

Em entrevistas à época da inauguração, em dezembro, Salcedo falou que não faria um monumento vertical, como um obelisco, para lembrar de algo tão atroz. Sua realização foi uma superfície 
horizontal e neutra, que chamou de “contramonumento”. 

Mas nem tudo é dor, e há quem seja otimista ao falar do presente. A  galerista María Eugenia Niño, dona da Sextante, casa que fundou em Bogotá em 1981, diz que a sociedade colombiana está comprometida com a paz: “É o começo de uma grande mudança”.

Por outro lado, ela pondera que “não se pode perdoar [os guerrilheiros] quando não se sabe onde os desaparecidos estão”. As seis décadas de conflito entre as guerrilhas marxistas e os grupos paramilitares que os combatiam deixaram 80 mil desaparecidos, segundo um estudo recente do Centro Nacional para Memória Histórica.

Para lidar com a paz num país que nunca a teve, são necessárias uma nova maneira de pensar e boa vontade por parte da população, afirma a galerista, em tom de esperança. “É sentir que estamos em outro momento. Mas não é fácil.”

O jornalista viajou a convite da ArtBO

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