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Cinema

Filme sobre Hebe cria personagem sanitizada para a era MeToo

Versão da apresentadora como paladina dos direitos LGBT é simpática, mas não se sustenta diante da realidade

Neusa Barbosa

Hebe - a Estrela do Brasil

  • Quando Estreia nesta quinta (26)
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Andréa Beltrão, Caio Horowicz, Marco Ricca e outros
  • Produção Brasil, 2019
  • Direção Maurício Farias

Andréa Beltrão recria Hebe Camargo numa versão anos 1980 na cinebiografia “Hebe - a Estrela do Brasil”, que reveste a figura da popular apresentadora de uma aura contemporânea, maquiada com toques de empoderamento feminino, liberdade de expressão, pautas identitárias e até um aceno ao MeToo.

A embalagem é propícia para sanitizar a personagem, uma notória conservadora em todos os sentidos, num filme inserido na tendência atual de biografias mornas de figuras famosas da TV brasileira —caso de Chacrinha, Wilson Simonal e Erasmo Carlos.

De saída, o grande álibi do filme, dirigido por Maurício Farias e roteirizado por Carolina Kotscho, é a simpatia de Andréa Beltrão, entrando sem nenhum vestígio de imitação na pele de Hebe, com quem não guarda semelhanças físicas.

Sua reinvenção da personagem, de quem incorpora alguns inevitáveis bordões e até peças de figurino, é a ferramenta mais honesta de uma cinebiografia que se dispõe claramente a abafar as contradições da famosa apresentadora.

Escolhendo um recorte temporal nos anos 1980, quando Hebe trocava de emissora de TV, a história constrói a imagem de uma paladina da liberdade de expressão, enfrentando a censura nos estertores de uma ditadura militar que ela nunca realmente afrontou, por conta de uma entrevista ao vivo com a transexual Roberta Close.

Há uma insistência em pintar Hebe como defensora de LGBTs num período em que a Aids ceifava vidas com a mesma virulência com que o preconceito demonizava essa comunidade em torno da doença. 

Por mais simpática que seja essa reconstrução ficcional —com limitações certamente atribuíveis à supervisão da família da personagem—, há o grande obstáculo de que a realidade deixou pegadas profundas demais para que tal versão heroica se sustente.

A Hebe real, que tantos de nós ainda somos capazes de recordar, era muito aguerrida, sim, mas na defesa de sua própria liberdade de expressão. Em seu território, não abria mão de decidir quem convidava ou não ao seu sofá de entrevistas. Não era uma questão de militância pública, mas sim estritamente pessoal, assim como sua simpatia por gays, como seu cabeleireiro, Carlucho (Ivo Müller).

Dentro de sua casa, para lidar com a sexualidade de seu filho Marcello (Caio Horowicz), ela não exibia a mesma desenvoltura, como o filme, aliás, não esconde. Essa esfera doméstica, onde se trava a batalha contra um marido abusivo (Marco Ricca, numa interpretação um tanto over), é o aspecto em que o filme funciona melhor, dando conta de pelo menos uma contradição, entre a poderosa no palco e a esposa infeliz.

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