Coleção Folha reconstitui período republicano, marcado por crises e muitas fake news

Série com 28 livros percorre período da queda da Monarquia aos primeiros meses do governo de Bolsonaro

Naief Haddad
São Paulo

 

Há quase um século, em 9 de outubro de 1921, a disputa política dominava as rodas de conversa no Rio de Janeiro. O motivo era a publicação pelo jornal Correio da Manhã de uma carta atribuída a Arthur Bernardes, governador de Minas Gerais e candidato à Presidência.

As críticas contidas na correspondência eram violentas. Hermes da Fonseca, pré-candidato ao governo federal, recebia a alcunha de "sargentão sem compostura". Um jantar com apoiadores de Hermes era descrito como uma "orgia".

Pintura “A Pátria”(1919), de Pedro Bruno - Reprodução

Houve outra carta atribuída a Bernardes, publicada logo em seguida. Desta vez, eram ataques a Nilo Peçanha, que também concorria ao cargo.

As correspondências eram falsas, descobriu-se depois, e buscavam prejudicar Bernardes. Apesar disso, o mineiro foi eleito presidente em 1922.

As fake news que contaminam a política costumam ser vistas como fenômeno recente. Não são. A República no Brasil, cujo marco inicial é 15 de novembro de 1889, está repleta de passagens como a das cartas inverídicas, em que mentiras resultaram em danos a figuras públicas.

Episódios como esse são lembrados na Coleção Folha - A República Brasileira, que será lançada no próximo domingo (22). Compõem a série 28 livros, que percorrem 130 anos, da queda da Monarquia aos primeiros meses do governo de Jair Bolsonaro (PSL).

A coleção "não festeja uma efeméride", afirma o jornalista Oscar Pilagallo, organizador do projeto. "É um olhar em retrospecto, em que se reconhecem superações, conquistas e avanços, e que também detecta crises, fragilidades e contradições da República."

Além de coordenar a série, Pilagallo é autor de "A História da República", uma visão panorâmica que abre a coleção. Esse primeiro volume será lançado no domingo junto com "Deodoro da Fonseca - O Começo da República", do historiador Pietro Sant'Anna.

De modo geral, cada livro é dedicado a um presidente, mas há casos em que dois mandatários dividem o mesmo volume. É o que acontece na quarta obra da coleção, que aborda Prudente de Moraes e Campos Salles, os dois primeiros presidentes do ciclo civil da Primeira República.

Com exceção do volume inicial, com 96 páginas, os livros têm entre 64 e 80 páginas. Além dos textos, há fotos, charges, gravuras, mapas, registros pessoais e documentos históricos. Uma cronologia do período em questão aparece no fim de cada volume, além de indicações bibliográficas.

Entre os autores das obras que compõem a série, estão historiadores, como Márcia Juliana Santos, e jornalistas, como Lucas Ferraz. Vencedor do prêmio Jabuti por quatro vezes, Lira Neto assina o 12º livro da coleção, dedicado a Getúlio Vargas e Eurico Dutra.

O gaúcho de São Borja, aliás, é citado como exemplo por Pilagallo do cuidado dos textos em evitar maniqueísmos.

Getúlio será visto como o ditador do Estado Novo (1937 a 1945), que fechou o Congresso Nacional, entre outras medidas autoritárias. Mas também como o "pai dos pobres", que promoveu avanços expressivos na legislação trabalhista.

"Houve preocupação de não glorificar nem demonizar ninguém", afirma o organizador da coleção. "Procuramos nos aproximar o máximo possível de uma justiça histórica."

Pilagallo, no entanto, faz a ressalva de que esse cuidado não implica "dar o mesmo peso para aspectos positivos e negativos. Não houve uma isenção matemática".

Os 130 anos de República no Brasil são uma história de ambiguidades, a começar por Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente do país.

Monumentos país afora homenageiam o herói fundador da República, o marechal exaltado pelo povo pela proeza de livrar o país do atraso representado pela monarquia. Esse retrato oficial se distancia, porém, da verdade histórica.

Até semanas antes de tirar a espada para proclamar a República, Deodoro era monarquista convicto e amigo de Dom Pedro 2º. A mudança de regime foi articulada por militares e grupos insatisfeitos da elite, sem uma mobilização popular expressiva.

No exercício da Presidência, Deodoro era tido como "conservador demais" até por setores do Exército.

"O marechal foi, portanto, um republicano atípico num país igualmente atípico", escreve Pietro Sant'Anna no segundo livro da coleção.

Apesar das contradições que acompanharam Deodoro, retratá-lo é uma missão menos arriscada do que apreender os trunfos e os deméritos dos presidentes mais recentes.

No 28º e último volume da série, dedicado a Michel Temer e aos primeiros meses de Bolsonaro, o tom jornalístico tende a se impor. "Será o livro mais fiel à ideia de que o jornalismo é o primeiro rascunho da história", diz Pilagallo.

O bloco final da coleção, com os livros sobre os líderes que assumiram depois da redemocratização, é pontuado pelo que o organizador trata como "testes de estresse" das instituições políticas.

O primeiro desses grandes momentos de tensão ao longo do período foi a renúncia de Fernando Collor de Mello em 1992, depois da abertura pela Câmara do processo de impeachment.

Em 2019, avalia Pilagallo, Bolsonaro tem provocado um novo "teste de estresse" por meio de sua retórica agressiva. Apesar disso, segundo ele, "as instituições resistem".

O segundo capítulo do livro que abre a Coleção Folha começa com uma constatação: "A República brasileira nasceu torta". Daqui a exatamente dois meses, ela chega aos 130 anos —e torta se mantém.

OBRAS SOBRE O PERÍODO

Coleção Folha - A República Brasileira - Como comprar: pelo site folha.com.br/republica ou tels. 11- 3224-3090 (Grande SP) e 0800-775-8080 (outras localidades) e nas bancas, a partir de 22/9. Preço: R$ 21,90 cada volume (SP, RJ, MG e PR). Nos demais estados, os valores estão disponíveis no site. Na compra do 1º volume, o 2º é gratuito. Assinante Folha e UOL ganha quatro livros na compra da coleção completa.

Dicionário da República - Com organização das historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, reúne 51 textos críticos. Será lançado no mês que vem. Ed. Companhia das Letras, 504 págs. R$ 100

130 Anos: Em Busca da República - Recém-lançado, tem 38 análises sobre o período. Entre os autores, estão Boris Fausto e André Lara Resende. Ed. Intrínseca. 256 págs. R$ 60

O Pecado Original da República - Escrito pelo historiador José Murilo de Carvalho, reúne ensaios sobre eventos e personagens do período republicano. Ed. Bazar do Tempo. 294 págs. R$ 45

Os Presidentes - A História dos que Mandaram e Desmandaram no Brasil, de Deodoro a Bolsonaro - Rodrigo Vizeu, jornalista da Folha, idealizou o podcast Presidente da Semana. O projeto inspirou o livro, que será lançado em meados de outubro. Ed. Harper Collins. 336 págs. R$ 50

História do Brasil República - O historiador Marcos Napolitano narra o período que vai da queda da Monarquia ao fim do Estado Novo. Ed. Contexto. 176 págs. R$ 25

Os volumes podem ser comprados pelo telefone, pelo site, em bancas ou em livrarias: 

  • folha.com.br/republica;
  • tels. (11) 3224-3090 (na Grande SP) e 0800-775-8080 (outras localidades)
  • O lançamento nacional acontece neste domingo(22). A cada semana um novo volume chega às bancas.
  • A venda não é restrita aos assinantes da Folha.

Veja os preços:

  • Cada volume custa R$ 21,90 nos estados de SP, RJ, MG e PR. Para os demais estados, os valores estão disponíveis no site;
  • Na compra do primeiro volume, o segundo é gratuito;
  • Para a compra da coleção completa (28 livros), assinantes da Folha ou do UOL pagam R$ 591,30 (nesse caso, 4 livros são gratuitos);
  • Para os não assinantes, R$ 591,30 (frete gratuito para SP, RJ, MG e PR). Nos demais estados, os valores estão disponíveis no site ou SAA;
  • Na compra da coleção completa, é possível parcelar em até 10 vezes no cartão de crédito;
  • A coleção também é vendida em lotes de 7 livros cada ou volumes individuais

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