Criador de 'The Clock' gera cacofonia exuberante em exposição Em Los Angeles

Artista usa mais de 150 mil vídeos curtos de uma rede social para montar cinco instalações

Fernanda Ezabella
Los Angeles

O chiado do ovo na frigideira se mistura ao zunido do maçarico na crème brûlée, até serem interrompidos pelo estalo seco de uma mordida numa bolacha. Dez celulares expostos numa sala escura de museu trazem sons e imagens de vários cantos do planeta, formando uma sinfonia gráfica inusitada.

“Sound Stories” é a nova exposição do artista e compositor suíço americano Christian Marclay, que usa mais de 150 mil vídeos curtos de uma rede social para montar cinco instalações em cartaz no Los Angeles County Museum of Art, o Lacma, até outubro.

Marclay é mais conhecido por “The Clock” (2010), um vídeo com 24 horas de duração, montado a partir de cenas do cinema que exibem as horas do dia. Ele também se destaca pelas criações musicais e foi dos pioneiros a arranhar discos em vitrolas para bolar novos sons nos anos 1980.

'Sound Stories', a nova exposição do artista e compositor Christian Marclay
'Sound Stories', a nova exposição do artista e compositor Christian Marclay - Reprodução

“Sound Stories” surgiu de um convite da Snap Inc., dona do aplicativo Snapchat, cujos usuários publicam 3 bilhões de vídeos curtos (ou “snaps”) por dia. Mas enquanto a maioria está preocupada com suas imagens e selfies, Marclay estava de olho em seus áudios.

“Queria revisitar algumas ideias de quando eu trabalhava com telefones e LPs. Não queria fazer outro ‘The Clock’, isto está feito e pronto”, afirmou Marclay, 64, na abertura da exposição.

“Passamos tanto tempo no celular hoje em dia, é algo tão prevalente, queria fazer algo com isso. O celular é uma câmera e também um microfone. Comecei pelo som e, em alguns casos, não tinha nenhum controle das imagens.” 

O artista não está presente em nenhuma plataforma social e aprendeu como funciona o Snapchat com ajuda dos engenheiros da empresa. “Não sei como as pessoas acham tempo para ficar nas mídias sociais. Mal dou conta dos emails”, disse a esta repórter.

“Acredito que isso me permite ser mais crítico porque estou vindo de fora. Sei que é algo importante para muitas pessoas. É uma nova forma de linguagem, um jeito de se comunicar com som e imagem.”

Os engenheiros criaram algoritmos que vasculharam por dias centenas de milhões de “snaps” e catalogaram os áudios por palavras para facilitar a busca do artista. Apenas vídeos públicos foram usados.

A primeira instalação de “Sound Stories”  é “All Together”, com dez celulares exibindo 400 “snaps” sincronizados. O resultado é uma cacofonia exuberante, ainda que as imagens sejam triviais: gente cozinhando, crianças fazendo graça, cachorros fofos etc.

A obra lembra “Video Quartet” (2002), no qual Marclay põe lado a lado cenas de filmes de Hollywood com atores tocando instrumentos ou fazendo barulhos, numa sinfonia também caótica.

Outros dois novos trabalhos pedem a interação do público. Em “The Organ”, somos convidados a brincar com um teclado: cada tecla desencadeia uma série de “snaps” com um tom musical parecido, exibidos num grande telão.

Já em “Talk to Me/Sing to Me”, podemos cantar para diversos celulares, que respondem com “snaps” parecidos em sonoridade. Apesar da alta tecnologia e da criatividade de Marclay, é difícil encontrar um visitante capaz de tocar ou cantar algo interessante para obter uma resposta à altura.

As imagens tampouco são relevantes em sua singularidade, já que funcionam apenas por causa de seu poder coletivo. “Não há nada de extraordinário nesses snaps, é a banalidade do nosso cotidiano”, diz Marclay. “Mas você percebe que todos ao redor do mundo estão fazendo as mesmas coisas. É prova de que a humanidade está conectada nessa nova linguagem visual.”

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