Descrição de chapéu Moda

Designer foge de estereótipo bege e sem vida vinculado à moda sustentável

Enquanto grifes discutem como tornar moda mais sustentável, Reiko Sudo defende otimizar técnicas que já existem

Pedro Diniz
São Paulo

Numa temporada de desfiles marcada pela discussão sobre os efeitos de um pacto pela sustentabilidade —assinado e entregue durante a cúpula do G7 por 32 gigantes da moda, entre elas Zara, Prada e Salvatore Ferragamo—, grifes e estilistas começam a aprofundar a discussão sobre o futuro da confecção de roupas.

O centro do debate, que deve esquentar já na edição deste ano da semana de moda de Milão, iniciada na terça (17), é sobre como a indústria pode mitigar o impacto do uso indiscriminado de recursos naturais ao mesmo tempo em que cria soluções para substituí-los sem preterir a inovação, espinha da costura. 

As marcas signatárias do documento já patrocinam pesquisas para, por exemplo, zerar as emissões de carbono de suas roupas e acessórios, como acaba de anunciar a Gucci.

Mas para uma das maiores designers têxteis do mundo, a japonesa Reiko Sudo, não é preciso ir tão longe assim. 

Ela que tem vários de seus tecidos expostos até 27 de outubro na Japan House, em São Paulo, acredita que o futuro da vestimenta está na otimização de técnicas que já existem. E também na força do trabalho manual, algo que, por si só, já diminui essas emissões e substitui a ideia de descarte pela 
ideia de bem durável.

Dos 35 tecidos selecionados pelas curadoras Adélia Borges e Mayumi Ito, há joias do design moderno como o Kibiso Futsu Crisscross, criado em 2008, com fibras feitas de casulos do bicho-da-seda jogados fora. O Brasil, vale dizer,  é um dos pioneiros no uso em larga escala desse “lixo”, reaproveitado por tecelagens como a de O Casulo Feliz, do Paraná, e que já foi usado na confecção de produtos de marcas como Osklen e Cris Barros.

Páginas de jornais, aço inox, plástico e até borracha estão entre os materiais reaproveitados por Reiko Sudo, que subverteu a ideia de que a reciclagem está ligada só ao artesanato sem valor agregado, 
ou é, como se costuma definir no país, coisa de “hippie”.

Essas obras vestíveis, usadas nas peças de sua grife experimental Nuno, estão ou já foram expostas em museus como o MoMA, de Nova York, e o Victoria & Albert, de Londres, ao mesmo tempo em que foram reinterpretadas por grifes de luxo que procuraram a designer têxtil para entender o seu processo de confecção. 

Na mostra paulistana, intitulada “Nuno – Poéticas Têxteis Contemporâneas”, nada remete ao estereótipo bege e sem vida vinculado à moda sustentável, um preconceito apontado por especialistas como entrave para a disseminação de práticas ecológicas por parte das marcas.

“Muita gente acha que as gerações mais jovens preferem comprar produtos produzidos em massa, de baixo custo, atentas a cada nova temporada”, diz Sudo. “Eu, no entanto, gosto de pensar que ainda há tempo para compartilhar e de passar adiante técnicas e processos, toda uma cultura que existe em torno da relação entre as pessoas e as coisas que fazemos e usamos.”

O interesse tanto da comunidade artística quanto dos consumidores provaria a eficácia dessa união entre tecnologia e tradição. 

O que a designer propõe, em resumo, é a coexistência desses dois mundos que a indústria, principalmente a da chamada “fast fashion”, reluta em implantar no chão de fábrica.

Seu trabalho, reconhecido como pioneiro por diversas instituições de moda ao redor do mundo, muitas delas nas quais atua como professora convidada, rendeu a ela o convite para ser consultora de design da Muji, uma das redes japonesas de varejo mais atuantes no tema da sustentabilidade e para a qual ela indica materiais têxteis.

“Fala-se muito em inovação, mas quando se olha atentamente, essas novidades são técnicas usadas há 10 ou 15 anos por outro setor. Um exemplo é o ato de tricotar, muito antigo, mas vendido como inovação agora que é base da articulação artificial de máquinas. Ou seja, não é preciso parar para criar o novo, mas conseguir olhar ao redor e pensar outra forma de aplicar a técnica”, explica.

Painéis expostos na Japan House exemplificam essa ideia ao transformar em tecidos o “washi”, um papel japonês, e o “bashofu”, a fibra de bananeira produzida na ilha de Amami, em Okinawa. Eles podem ser tocados pelos visitantes, uma forma encontrada por Sudo para fazer as pessoas sentirem o toque dos têxteis e provar a sensação que causam na pele.

Aí reside um ponto importante desse exercício de futurologia que a moda empreende. Independentemente do método de produção e do que a indústria pretende criar —“é comum ouvir que impressão 3D e roupa com eletricidade são o futuro”, diz Sudo—, o mais importante ainda é, segundo ela, pensar o quanto essas soluções impactam as pessoas que as vestem e quão belas elas são. Afinal, moda trata de funcionalidade
e beleza na mesma medida.

“Não faria algo que não achasse belo, e vejo essa como sendo a diferença entre técnicos e designers. A tecnologia pode estar presente tanto no tecido como na técnica para a fabricação, mas nosso trabalho é fazer essa tecnologia ser sensorial.”

O futuro das roupas, então, seria um misto de poesia e função, como “um tecido fabricado a partir da água, que você utiliza e, quando for se desfazer dele, o dissolve para poder reutilizar e criar uma outra roupa, fazendo, assim, o tecido acompanhar os sentimentos humanos”.

Para alguém como ela, que já criou tecidos feitos com fibras tiradas das ondas de luz, um experimento que usou maquinário de ponta e técnicas manuais, a ideia não parece ser tão mirabolante assim. 

A julgar por seus desejos, parece não haver limites para o que Sudo acredita ser viável produzir no futuro. “Acharia o máximo, por exemplo, se houvesse uma roupa que, quando eu morresse, ela se desintegrasse.”

 

Nuno – Poéticas Têxteis Contemporâneas

  • Quando Ter. a sáb., das 10h às 20h. Dom. e feriados, das 10h às 18h. De 20/9 a 27/10
  • Onde Japan House - av. Paulista, 52
  • Preço Grátis

OS TRAJES DO AMANHÃ

Fontes cíclicas
Haverá utilização de outros materiais para criação de fibras têxteis, como os de origem vegetal, a exemplo das fibras de bananeiras, café e soja, e fontes reaproveitadas, como aço e plástico

Impressão caseira
A ideia é que se compre moldes de peças pela internet para imprimi-las em casa. Protótipos de calçados já são produzidos em impressoras 3D

Toque sensível
As roupas conectadas aos dispositivos móveis devem evoluir para virar plataformas de comando que acionam funções por meio de nanotecnologia

Controle de saúde
Já há roupas que respondem às variações de temperatura e aos batimentos cardíacos. Estudam-se formas para que elas, além de avisar, ajudem a controlar alterações no corpo

Couro biológico
Patrocinada por grifes, a start-up americana Modern Meadow criou um couro feito a partir de uma cepa de fermento que vira uma espécie de colágeno similar ao bovino e, consequentemente, fibra. Vai vir para concorrer com a indústria coureira

Mão versus máquina
Num varejo em que tudo se copia, a busca por diferenciação já leva marcas a resgatar heranças têxteis manuais. Brasil, Japão e Índia devem se beneficiar da caça aos tesouros

Erramos: o texto foi alterado

A exposição na Japan House dedicada à designer Reiko Sudo já está em cartaz. O texto foi corrigido.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.