É impossível fazer teatro sem patrocínio, sem mecenas, diz atriz Guida Vianna

Em cartaz em São Paulo como a matriarca de 'Agosto', de Tracy Letts, a veterana fala da crise e espera voltar à televisão

Bruno Cavalcanti
São Paulo

Em meio a colegas, dentro do luxuoso Golden Room do Copacabana Palace, uma atriz ouve seu nome ser anunciado como o vencedor na categoria principal de um prêmio de teatro. 

Ela sobe ao palco e, numa cerimônia em homenagem a Antônio Fagundes, toma para si os holofotes com um discurso contundente aplaudido de pé e celebrado por meses.

“Acho que foi o momento de maior visibilidade da minha carreira”, se diverte Guida Vianna. Em janeiro de 2018, a atriz carioca, ao receber o prêmio Cesgranrio por sua atuação na peça “Agosto”, falou sobre os perrengues da profissão. 

“Eu adoraria, Fagundes, ser você. Juro por Deus, mas eu não sou. Eu não ponho 700 mil pessoas numa temporada. A gente trabalha em salas de 80 lugares. Semana passada eu estava filipetando no metrô para conseguir lotar o [teatro] Sesi”, falou no discurso.  

Veterana, Vianna voltou a chamar a atenção graças a sua elogiada interpretação da matriarca Violet em “Agosto”. A montagem da peça do dramaturgo americano Tracy Letts cumpre nova temporada agora em São Paulo.

“A Violet é o que hoje em dia se chamaria de uma mulher politicamente incorreta”, diz sobre a personagem que já foi vivida por Meryl Streep nos cinemas, em “Álbum de Família”

Violet não é, no entanto, o primeiro êxito da atriz de 64 anos. “Ao longo da carreira a gente tem momentos de mais e de menos brilho. Já tive momentos de brilho aos 24 anos, aos 32, aos 40, aos 50...”

“Isso estimula a gente a continuar na profissão. Se eu não tivesse tido nenhum momento de brilho ao longo da carreira, se esse fosse o primeiro, eu já teria desistido”, diz a atriz que aos 16 decidiu que era esse o ofício que seguiria após ver Marília Pêra no teatro.

Marília assistiu a Guida em cena pela primeira vez em 1977, quando a então jovem de 23 anos vivia uma cafetina que comandava a peça “Beco do Brecht” no Teatro Opinião, no Rio de Janeiro. “Ela me pegou no canto e me deu várias dicas, me ensinou muita coisa. Então fomos namorando a chance de trabalhar juntas, o que só aconteceu em 2007, na novela ‘Duas Caras’.”

Escrita especialmente para Guida após seu ótimo desempenho em “Senhora do Destino” (2004), a personagem Neli era a melhor amiga de Gioconda, a socialite vivida por Marília em sua primeira (e única) novela na faixa das oito. O sucesso rendeu ainda uma parceria no teatro, com a peça “Gloriosa”, dirigida por Charles Möeller e Cláudio Botelho, sem chegar a lhe garantir passe livre em novelas.

“Lembram-se de mim de quatro em quatro anos, mas nunca tive contrato. Fiquei 20 anos sem fazer novelas, e só voltei porque o Aguinaldo Silva sempre lembra de mim”, diz a atriz que, a despeito da TV —esteve recentemente em “O Sétimo Guardião”—, sempre construiu um nome de respeito no teatro e coleciona prêmios, como o Shell.

Sobre o discurso na entrega do Cesgranrio, garante que nada foi pensado. “Havia ali um inconsciente coletivo daquela gente que rala tanto e vive de teatro. Eu senti que deveria falar em nome da minha classe, que é essa galera que vive de fazer peça infantil, adulta, dar aula em três escolas, fazer leituras, oficinas e ensaia duas peças ao mesmo tempo.”

“O teatro ficou caro. O aluguel da sala, dos refletores, o cachê dos técnicos, a divulgação, os outdoors, tudo é muito caro. Quando eu comecei a trabalhar, a gente fazia teatro com dinheiro do próprio bolso. Hoje é impossível sem um patrocínio, um mecenato”, enfatiza a atriz.

Pouco esperançosa com o atual momento político do país, Guida prefere focar o drama familiar de “Agosto”, que fica em cartaz no Teatro Porto Seguro até o fim do mês  antes de partir para Belo Horizonte e voltar para o Rio de Janeiro, onde fica até dezembro, no Teatro do Leblon.

Prestes a completar 65 anos, Guida não enxerga a chance de parar ou de dar qualquer pausa na carreira. Em janeiro deve começar a ensaiar uma peça ainda inédita a convite da atriz Camila Nhary (“Tom na Fazenda”), que assina o texto, e inicia as gravações de uma nova série da Netflix sobre a qual, por contrato, não pode dar detalhes. Enquanto isso, espera um novo convite para televisão. 

“A gente perde dinheiro no teatro e ganha na TV, é inevitável. Espero que daqui a três anos eles voltem a se lembrar de mim”, finaliza.

Agosto

  • Quando Sex. e sáb., às 21h. Dom., às 19h. Até 29/9
  • Onde Teatro Porto Seguro, alameda Barão de Piracicaba, 740
  • Preço R$ 70 e R$ 80
  • Classificação 14 anos
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