Elton Medeiros, craque no uso da caixa de fósforos, foi um gigante do samba

O sambista viveu o suficiente para testemunhar o seu reconhecimento como mestre em tudo o que se propôs a fazer

Luiz Fernando Vianna
Rio de Janeiro

Ao completar 88 anos, em 22 de julho do ano passado, Elton Medeiros foi levado a uma pequena celebração no Solar Wilson Moreira, na praça da Bandeira, na zona norte do Rio de Janeiro.

Estavam lá, entre outros, seu último parceiro e organizador da homenagem, Vidal Assis, o também parceiro Hermínio Bello de Carvalho, o letrista Ronaldo Bastos, o músico e arranjador Paulão Sete Cordas e o anfitrião Wilson Moreira —que morreria pouco depois, em 7 de setembro.

Elton estava lá, mas não estava. Sua saúde já era frágil, a lucidez também, e uma cuidadora o ajudava a se locomover. Mas nada disso impedia de se reconhecer ali um gigante.

Viveu o suficiente para testemunhar o seu reconhecimento como mestre em tudo o que se propôs a fazer em música —compositor, cantor, ritmista e até pensador, já que era um militante contra a estigmatização racista do samba como algo menor.

Deixou uma obra irretocável. Com seu parceiro mais constante, Paulinho da Viola, criou “Onde A Dor Não Tem Razão”, “Recomeçar”, “Sentimento Perdido”, “Ame” e outras. Ao lado de Cartola fez, por exemplo, “O Sol Nascerá”, “Peito Vazio” e “Sofreguidão”. Com Zé Keti, “Mascarada” e “Psiquiatra”. Com Hermínio Bello de Carvalho, “Pressentimento”. Com Paulo César Pinheiro, “A Ponte”. Com Mauro Duarte, “Maioria sem Nenhum”. A lista de belos sambas é enorme.

Elton Antônio de Medeiros nasceu em 1930 na Glória, na zona sul do Rio, mas cresceu no subúrbio carioca. A musicalidade se revelou cedo e ele aprendeu a tocar trombone, além de dominar os instrumentos de percussão. Era um craque no uso da caixa de fósforos, como fica claro em muitas gravações de Paulinho da Viola.

Esteve nas origens de escolas de samba importantes, embora de menor porte, como a Tupi de Brás de Pina e a Aprendizes de Lucas —para a qual fez “Exaltação a São Paulo”, em 1954.

Começou a aparecer como compositor ainda na década de 1950, mas o grande salto veio em 1964, quando Nara Leão gravou “O Sol Nascerá”, sua primeira parceria com Cartola. Os dois tinham sido desafiados por um amigo a fazer um samba rapidamente. Em menos de meia hora, nasceu uma obra-prima.

No ano seguinte, Elizeth Cardoso gravou três músicas que tinham Elton entre os compositores. Uma delas, “Rosa de Ouro” (com Paulinho e Hermínio), era o título de um espetáculo musical que se tornou histórico.

Elton, Paulinho, Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho e Anescarzinho do Salgueiro formavam Os Cinco Crioulos, que cantavam e também acompanhavam Clementina de Jesus e Aracy Cortes.

Foi com Paulinho que ele gravou “Samba na Madrugada”, o primeiro disco com o nome de ambos em destaque. O primeiro LP apenas dele veio em 1973. Realizou poucos discos próprios. Não vivia apenas de música (era desenhista técnico do estado do Rio) e não tinha estômago para procurar gravadoras e rádios.

Ganhou justa fama de rabugento. Numa de suas últimas aparições na TV, no programa “Conversa com Bial”, em 2017, arrancou risadas ao dizer que Cartola era ranzinza. Afinal, era uma forte característica sua, derivada de uma intransigência contra tudo o que lhe parecesse indigno. Mas sabia ser um divertido contador de histórias, como as vividas como Zé Keti e Nelson Cavaquinho.

Era exaltado principalmente como melodista. Embora tenha composições animadas como “Meu Sapato Já Furou” (com Mauro Duarte e sucesso na voz de Clara Nunes), destacava-se nos sambas mais lentos, cadenciados, em tom menor. Entre outros reconhecimentos, ganhou o Prêmio Shell de Música, em 2001, pelo conjunto da obra.

Nesta década, já estava cego —​por causa de um problema mal cuidado— e desencantado quando o jovem Vidal Assis o procurou. De parceiro novo, animou-se para voltar a criar. Muitas criações estão inéditas.

Elton morreu na terça (3), aos 89 anos, numa clínica onde tentava se recuperar de uma pneumonia. O enterro é nesta quarta (4), às 15h30, no cemitério do Catumbi. 

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior do texto errou o sobrenome do músico. O texto foi corrigido.

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