Descrição de chapéu

Elza Soares perde nuances em disco pensado para servir a personagem

Força simbólica da cantora prejudica repertório de 'Planeta Fome', mas voz e arranjos têm força

Luiz Fernando Vianna

Planeta Fome

  • Quando Elza Soares
  • Preço R$ 29,90 (CD), R$ 95 (LP) e R$ 45 (fita cassete)
  • Gravadora Deck

Algo que se insinuava no CD “Deus É Mulher” (2018), mas que não abalou o excelente resultado final, compromete “Planeta Fome”: Elza Soares está se vendo e sendo vista como um personagem.

Elza é, sim, das figuras mais ricas da vida brasileira: negra pobre que sobreviveu a feridas físicas e emocionais, ela beira os 90 anos consagrada.

Sua voz inconfundível também é simbólica. Representa outras mulheres negras e pobres, além de variadas vidas vulneráveis. Mas é nesse ponto que “Planeta Fome” se enrosca.

Parte do repertório foi criado a serviço desta Elza simbólica. Uma faixa, “País do Sonho” (Chapinha da Vela e Carlinhos Palhano), tem letra óbvia: “Eu preciso encontrar um país/ Onde ser solidário seja um ato gentil/ Eu prometo que vou encontrar/ E esse país vai chamar-se Brasil”.

Outras são boas, até muito boas, mas deixam à mostra o selo “feita para Elza”, o que as reveste de certo artificialismo. Um exemplo é a potente “Virei o Jogo”, de Pedro Luis: “Já quebrei as caras/ Enfrentei as feras, nunca me rendi”; “Tenho meu povo para me proteger”.

Também é o caso de “Não Tá Mais de Graça”, de e com Rafael Mike. Como explicita o verso “A carne mais barata não tá mais de graça”, o objetivo é inverter o tom trágico da música do Rappa (“A Carne”) que Elza transformou em sua e mostrar que agora é forte a reação ao racismo.

Depois do CD “A Mulher do Fim do Mundo” (2015), que está entre o que de mais forte aconteceu no Brasil do século 21, a cantora foi tomando conta da seleção do repertório. Este perdeu em nuances.

Elza veio do planeta fome —como disse a Ary Barroso no programa de calouros em que se lançou— e prefere papos retos a sutilezas. Daí, talvez, a escolha de duas composições de Gonzaguinha.

Com a repetição de seu verso acusador (“Você merece/ Você merece”), “Comportamento Geral”, feita no ápice da ditadura (1973), espelha os tempos polarizados de hoje. A levada de reggae a areja.

“Pequena Memória para um Tempo sem Memória” é mais complexa e atemporal. O trompete de Jessé Sadoc é detalhe precioso.

O produtor Rafael Ramos talvez tenha interferido pouco na seleção das canções, mas construiu sonoridade rica e diversificada.

“Libertação” (Russo Passapusso) tem a força do encontro entre o BaianaSystem e o maestro Letieres Leite; “Brasis” (Seu Jorge, Gabriel Moura e Jovi Joviniano) mescla gêneros sobre estrutura de samba-enredo; “Blá Blá Blá” combina fortes raps, embora faça citação boba de “Me Dê Motivos”, sucesso de Tim Maia; “Lírio Rosa” (Pedro Loureiro e Luciano Mello) é um respiro lírico; “Tradição” (Sergio Britto e Paulo Miklos) é a iconoclastia quando doce.

O trabalho tem altos e baixos, mas Elza permanece imensa.

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