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Em 'Tornar-se Palestina', escritora chilena retorna às origens e aponta injustiças

Lina Meruane resolveu viajar e escrever sobre Oriente Médio após conselho de taxista em Nova York

Sylvia Colombo
Buenos Aires

O Chile é o país em que vive a maior parte da comunidade palestina fora do mundo árabe —cerca de 800 mil pessoas. A escritora Lina Meruane, 49, é uma das descendentes das famílias que buscaram abrigo na América do Sul frente às perseguições que sofriam no Oriente Médio.

Hoje radicada em Nova York, a ensaísta e escritora já tem uma trajetória com êxito de crítica e de público, com obras como “Contra os Filhos” (Todavia) e “Sangue no Olho” (Cosac & Naify). Esta última a projetou internacionalmente, com o prêmio Sor Juana Inés de la Cruz, da Feira Internacional do Livro de Guadalajara.

A escritora chilena Lina Meruane - Daniel Mordzinski/Divulgação

Em entrevista à Folha, Meruane contou que a ideia de fazer um livro sobre suas próprias origens já estava de algum modo em seus pensamentos, mas que só se concretizou depois que um taxista palestino, em Nova York, insistiu muito para que ela fizesse as malas e fosse conhecer a Palestina. 

O resultado é “Tornar-se Palestina”, obra que a Relicário lança agora no Brasil.

“Faço muitos regressos no livro, mas ao mesmo tempo me pergunto se posso chamar de regresso uma viagem a um lugar em que eu nunca estive. É um regresso, sim, mas em nome de meu avô, de minha família, que sempre mantiveram rituais palestinos em minha casa”, explica. 

Ela diferencia seu regresso de outros. “A palavra regresso tem muito poder e creio que é distinto o meu regresso do daqueles palestinos que nasceram em Gaza e hoje não podem voltar, que perderam suas casas e o que havia nelas. Nesse sentido, minha viagem adquiriu o sentido de apontar para algo que considero que é uma injustiça histórica.”

Meruane diz que não há, em sua escrita, um sentimento nostálgico. “Não falo de uma vida que eu gostaria de ter tido, caso meus antepassados não tivessem que sair dali. Minha maior preocupação era com um compromisso político de, por meio de minha escrita, chamar atenção para o que ocorreu e vem ocorrendo na Palestina.”

O livro tem três partes, que misturam reflexões a memórias de infância e observações in loco. A primeira corresponde a suas indagações a familiares sobre o passado de sua linhagem. A segunda, a investigações e leituras. E a terceira, à viagem propriamente dita.

Meruane crê que os intelectuais da atualidade estão muito focados em problemas locais, especialmente na América Latina. Conta, ainda, que sempre a intrigou o processo de assimilação dos palestinos no Chile, e de sua mistura com os imigrantes europeus e com a população local.

“Hoje a comunidade palestina chilena é muito integrada e também é uma comunidade grande e diversa, que já se dividiu politicamente, por exemplo, entre os que apoiaram ou foram contra a ditadura. Mas ela sempre se une quando o assunto é a Palestina.”

Tornar-se Palestina

  • Preço R$ 36,90 (200 págs.)
  • Autor Lina Meruane. Trad.: Mariana Sanchez
  • Editora Relicário
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