Descrição de chapéu Moda

Expressões como tomara que caia e baby doll escancaram o machismo do mundo fashion

Movimentos como MeToo e alta de feminicídios não abala popularidade desses termos com origens sexistas

Ilustração de Jairo Malta

Ilustração de Jairo Malta Jairo Malta

São Paulo

Tomara que caia, machão, baby doll. Enquanto há quem veja exagero ou falta de bom senso na luta do movimento feminista, o vocabulário da moda moderna oferece um prato cheio de expressões que, embora não expliquem os ataques recentes ao feminismo, mostram nuances da misoginia intrincada no dia a dia.

Todos esses termos, e outros recentes, como “boyfriend” —ou namorado, usado para descrever qualquer peça feminina ampla de corte masculino— guardam a ideia de subjugo da mulher, tanto aos desejos sexuais masculinos quanto aos acessos de violência praticados por alguns homens.

Desde o ano passado, linguistas e acadêmicos americanos começaram a olhar com lupa o porquê de a camiseta regata branca masculina ser popularmente chamada de “wife beater”, ou espancador de mulher.

Um artigo do New York Times aponta teorias de que o termo pode ter surgido de um episódio de violência doméstica, quando um homem, preso em 1947, em Detroit, fora fotografado com a peça depois de matar a mulher a pancadas.

Também se levanta a ideia de que a expressão era uma forma de demonizar a classe trabalhadora de ítalo-americanos, associando filhos de imigrantes a espancadores. 

Não à toa, a peça foi popularizada pouco depois em “Um Bonde Chamado Desejo”, filme de Elia Kazan de 1951, em que Marlon Brando vive um marido abusivo vestindo a tal camiseta em cena. A palavra só se tornou gíria nos anos 1990. Acabou difundida no varejo e, hoje, a roupa é vendida com seu nome de mau gosto.

 

Coincidência ou não, foi na mesma época que se difundiu o sinônimo brasileiro para essa peça que deixa os músculos à mostra. No país, não se compra camiseta de manga japonesa, pontuda nas barras, ou uma simples regata cavada, mas sim uma regata machão.

Da mesma forma que se credita a criação do nome americano a um teor de violência contra a mulher, a versão brasileira se propaga num cenário de aumento de feminicídios.

Segundo o último Atlas da Violência, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o número de assassinatos cometidos em ambiente doméstico aumentou 17% nos últimos cinco anos. 

Não há estudos sobre o uso da expressão “machão”, mas teóricos apontam que o termo alude à ideia de masculinidade que se expressa em músculos definidos, popularizados como padrão de beleza, no Brasil, no final do século passado. 

Hoje, segundo levantamento do setor, o país é o segundo no mundo em número de academias de ginástica, com 32 mil endereços até o ano passado, perdendo só para os Estados Unidos da regata “wife beater”.

“Esses termos têm menos relação com quem cria moda e mais do entendimento popular sobre a roupa. O país não tem tradição em moda masculina, então, as nomenclaturas acabam sendo propagadas sem filtro, usadas no vocabulário popular sem que sua origem seja detectada”, diz o estilista Mário Queiroz.

Fundador do Homem Brasileiro, evento de diálogos sobre masculinidade que ocorreu em São Paulo na semana passada, ele afirma que “o uso dessas nomenclaturas solidifica, confirma e reafirma o discurso machista em voga no país”.

Um dos nomes mais populares da roupa de dormir, o baby doll também tem sua origem no cinema, no filme “Baby Doll”, de 1956, obra do mesmo Elia Kazan que dirigiu “Um Bonde Chamado Desejo”. 

Lançado no país como “Boneca de Carne”, o longa retrata Baby Doll, uma garota infantilizada vivida por Carroll Baker. Ela veste uma pequena camisola de seda, dorme num berço e é espécie de prêmio para dois homens em conflito.

O roteiro de Tennessee Williams é baseado numa peça de sua autoria e foi amplamente criticado à época por sexualizar a imagem infantil, mas logo ganhou o imaginário pop por batizar a peça de roupa vinculada ao erotismo.

“Em países onde a moda é estudada na academia, não é comum o uso de termos pejorativos. Numa época em que se discute conceitos como masculinidade tóxica, eles dizem muito sobre como estamos e quem somos”, diz Queiroz.

Um dos modelos mais queridos entre as mulheres, e que de tempos em tempos encabeça listas de tendências, ilustra esse ponto linguístico. O vestido “strapless”, ou sem alças, creditado ao espanhol Cristóbal Balenciaga, surgiu em 1946 como opção de roupa de festa.

Em Portugal, ele ficou conhecido como “caicai”, uma referência ao fato de sua estrutura poder derrapar no colo. Quando cruzou o Atlântico, porém, foi rebatizado como um pedido às mulheres, um sonoro tomara que caia.

O norte do planeta também tem um imperativo fashion para chamar de seu. Tanto nos Estados Unidos quanto em outros países de língua inglesa, é corrente a expressão “fuck me pumps”, ou escarpin me foda, para definir o modelo de calçado de salto alto e bico pontudo capaz de empinar o bumbum da mulher. 

A expressão aparece na canção “We Are the Dead”, do álbum “Diamond Dogs”, que David Bowie gravou em 1974, e dá nome a uma faixa de Amy Winehouse, lançada em 2003. Um trecho da música da cantora diz que “quando você entra no bar, vestida como uma estrela, usando seus ‘fuck me pumps’, um homem repara em você”.

A ideia de entrega da mulher ao olhar masculino é própria da história da moda, mas ganhou força no século 20, quando a luta por igualdade entre os sexos ficou mais acirrada.

Na Idade Média, com a peste que devastou a Europa, a roupa aos poucos foi se tornando um instrumento para que mulheres e homens demonstrassem atributos físicos e, assim, estimulassem a procriação. Foi nessa época que as cinturas começaram a ser marcadas para levantar seios e calças masculinas ganharam braguilhas, chamadas de “cod piece”, para dar volume à genitália. Era algo como um ritual de acasalamento, que, depois, ganhou contornos hiper-sexualizados.

“Foi só no século 20 que as publicações passaram a orientar o comportamento. O conceito era a mulher estar a serviço do desejo masculino. As mulheres retratadas eram ricas, brancas e jovens, imagem que se perpetua até hoje”, diz Carol Barreto, professora do departamento de estudos de gênero e feminismo da Universidade Federal da Bahia.

Ela identifica “relações assimétricas de poder” surgidas na era moderna e argumenta que o desenho da roupa entrou “num contexto discursivo, no qual o corpo feminino se tornou vulnerável e objeto de desejo”. Nesse sentido, a moda, que a partir da Revolução Francesa passou a definir castas sociais, viraria arma de coerção no pós-Revolução Industrial.

Uma pesquisa do Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, há três anos, é definitiva para sustentar o argumento. Um em cada três brasileiros acreditam que “a mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada”.

Os códigos e nomenclaturas da moda, segundo Barreto, seriam construídos com o claro intuito de “adestramento social” das mulheres por meio de “estratégias de dominação” do homem. Ou melhor dizendo, do machão.

O que ler e ver 

‘O Herói Desmascarado’
O estilista Mário Queiroz estuda os códigos que o homem usa para afirmar a masculinidade (ed. Estação das Letras e Cores, R$ 46, 152 págs.) 

‘Masculinidades’
Compilado de ensaios sobre a imagem masculina no cinema, na literatura e na cultura pop
(ed. Estação das Letras e Cores, R$ 64, 351 págs.) 

‘História da Moda no Brasil’
João Braga e Luís André do Prado fazem um registro ilustrado dos suplementos femininos, que explicam as regras impostas às mulheres (ed. Disal, R$ 184, 640 págs.)

‘Baby Doll’
Filme de Elia Kazan, de 1956, retrata a relação de poder estabelecida entre o homem e a mulher objetificada

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