Feira de arte em Bogotá questiona conceito de América ao destacar latinos

A 15ª edição da ArtBO estende um tapete vermelho para a arte produzida nos países hispânicos

João Perassolo
Bogotá

Quem entra no galpão das Corferias, um espaço expositivo próximo à região central de Bogotá, é saudado por um letreiro luminoso de estética pixelada.

“Isto não é a América”, dizem as palavras, escritas sobre um mapa dos Estados Unidos. “Esta não é a bandeira da América”, afirma a frase seguinte, sobreposta a uma bandeira americana monocromática.

Produzida no final dos anos 1980, a obra de tom político do chileno radicado em Nova York Alfredo Jaar parece não ter sido escolhida por acaso para dar as boas vindas aos visitantes, compradores e artistas que chegam à ArtBO, feira de artes na capital colombiana que vai até domingo (22). 

Ao negar aos Estados Unidos a apropriação da palavra América, o artista recoloca simbolicamente os países hispânicos (e quiçá o Brasil) no vasto território descoberto por Cristóvão Colombo. É uma forma de ressignificar o nome do continente, reconhecendo uma população que Trump tenta deixar do lado de fora com a construção de um muro.

De maneira análoga, a 15ª edição da ArtBO estende um tapete vermelho para a arte produzida nos países latinos, sobretudo naqueles em que se fala espanhol, e dá uma ignorada nos Estados Unidos. A feira é um “quem é quem” da arte hispânica, com obras que não costumam chegar a São Paulo.

Para se ter ideia, das 67 galerias presentes no evento, quase um terço é colombiana (20), mas há também casas de Cuba, Panamá, Peru, Equador, Argentina, México e até mesmo da combalida Venezuela. Sim, há casas europeias, mas a maioria é de cidades da Espanha; e há uma galeria de Nova York... que comercializa arte latino-americana. 

“O evento já teve mais galerias europeias, mas nunca foi muito americano. Acredito que pela cultura e pela língua locais”, diz Eduardo Brandão, sócio da galeria Vermelho —uma das seis brasileiras no evento— e integrante do comitê diretor da ArtBO. “Existe um sistema de museus, colecionadores e curadores de língua espanhola.”

Seu estande traz pequenas esculturas do colombiano Iván Argote, além de trabalhos do argentino Nicolas Robbio, um dos destaques da feira.

Dentro do universo hispânico do evento, o foco é a própria Colômbia, como se a feira celebrasse os artistas e galerias de seu país para comemorar os 15 anos de existência.

À venda estão desde as telas de Fernando Botero e peças de tapeçaria a artistas novíssimos em busca de representação, passando pelas gerações de 1940 (Beatriz González), 1960 (Antonio Caro) e 1970 (Nicolás Paris).

O comentário entre galeristas e críticos é como a política local se entranha nas obras, o que não é difícil de compreender se considerarmos que o país que viveu mais de meio século em guerra com as Farc. 

A política se traduz em obras literais, a exemplo das esculturas de revólveres da sem-galeria Susana Ordoñez e da palavra Colômbia escrita com a fonte da Coca-Cola do veterano Antonio Caro. Ou ainda em trabalhos mais metafóricos, como os desenhos sobre lençóis realizados pelo jovem Iván Navarro que retratam os contornos de policiais transando.

Essa potência artística toda, contudo, não se traduz em valores exorbitantes: as cifras variam entre US$ 3.600 mil e US$ 20 mil para a maioria dos trabalhos, e há poucas obras que valem mais de US$ 60 mil. Compare isso com os altos preços da SP-Arte para ter uma noção da diferença.

Para o curador holandês Krist Gruijthuijsen, diretor do Instituto de Arte Contemporânea KW, de Berlim, a ArtBO achou seu nicho nos compradores latinos. Por um lado, porque tem uma imagem de frescor e novidade se comparada à ArteBA (Buenos Aires) e à SP-Arte —por outro, “provavelmente porque a Colômbia é uma economia estável”.

Enquanto as outras economias da América Latina (exceto o Uruguai) patinam, a Colômbia vem crescendo nos últimos anos e prevê um aumento de 3,4% no PIB em 2019.

O jornalista viajou a convite da ArtBO

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