Feira de arte em Istambul surfa na onda de abertura de museus privados

Esta é a primeira Contemporary Istanbul com o novo prefeito da cidade, Ekrem Imamoglu, no poder

Silas Martí
Moscou

Num terraço com vista deslumbrante do estreito de Bósforo, os minaretes das mesquitas espetando o horizonte no lado oriental de Istambul, Ali Güreli subiu no pódio pronto para fazer barulho.

O fundador da feira Contemporary Istanbul, pioneira na Turquia e um dos mais fortes pontos de encontro do mercado da arte da Europa e da Ásia, celebrava o fim do silêncio, “uma renovação depois de um momento negativo”.

Na plateia do discurso no coquetel de abertura da feira, colecionadores e socialites, uma delas com um gato de pelúcia no pescoço, davam gritinhos animados, prontos para gastar os seus cartões de crédito no evento recém-encerrado.

Mais do que um playground de endinheirados, esta edição da Contemporary Istanbul é a primeira a acontecer com o novo prefeito da cidade, Ekrem Imamoglu, já no poder. 

Não faria grande diferença em qualquer outra metrópole no circuito da arte, mas o líder vitorioso duas vezes nas urnas em oposição aberta ao presidente Erdogan parece dar novo fôlego à cena artística com discurso favorável à liberdade de expressão. 

“Depois dessa eleição, nossa perspectiva mudou para melhor”, diz Güreli. “A economia está voltando a crescer e, depois de anos de silêncio, novos museus começam a abrir.”

Ele fala do Arter, imenso caixote branco inaugurado há uma semana por uma das famílias mais ricas do país no centro de Istambul, operação destravada pela mudança de comando na cidade, e do OMM, megamuseu desenhado pelo japonês Kengo Kuma em Eskisehir, cidade a algumas horas da metrópole. 
Nos próximos anos, outros cinco museus devem sair do papel, além de uma casa de ópera e a aguardada reforma da praça Taksim, epicentro dos protestos em torno do parque Gezi, que mergulharam o país no caos político seguido pela tentativa fracassada de um golpe de estado há três anos.

De lá para cá, a poeira não baixou. Em paralelo à feira, houve protestos na abertura da Bienal de Istambul, uma das mostras de arte contemporânea mais importantes no calendário mundial. No jardim do consulado francês, que organizou o evento, convidados seguraram bolsas estampadas com o rosto de Osman Kavala, empresário que comandava uma série de centros culturais no país preso por ordem governo de Erdogan acusado de envolvimento nos protestos do parque Gezi.

Diferente de todas as outras feiras da região, sendo a mais próxima a Art Dubai, no coração do Oriente Médio, a Contemporary Istanbul reúne 73 galerias de países que não costumam frequentar as revistas de arte do Ocidente —Bulgária, Geórgia, Grécia e Malta entre eles, exemplo da tentativa do evento de refletir os antigos domínios do Império Otomano com arte em ascensão.

“São nossas fronteiras estendidas. É uma proposta alternativa de posicionar a feira com outra geografia”, conta a francesa Anissa Touati, que estreia como diretora artística do evento. “Não vamos trazer as galerias gigantes da Europa e dos Estados Unidos porque elas não cabem no nosso mercado. Trazemos galerias emergentes, com modelos novos de trabalhar. São espaços de exposição e produção de arte, não só para a venda de obras.”

Isso fica nítido na feira, que deu destaque a espaços tão obscuros quanto interessantes, entre eles o Blitz, uma casa de Malta que abriga projetos experimentais de artistas com laços fortes no Mediterrâneo.
Outra galeria, a Project ArtBeat, da capital da Geórgia, mostrava trabalhos de Anna K. E., artista que representa o país na atual Bienal de Veneza.

Mas há também uma overdose de arte mais kitsch e decorativa, que parece agradar ao público turco. Abstrações coloridíssimas, em cores berrantes, dominavam a seleção de muitas das galerias, a maioria desconhecida no Ocidente.

Os preços praticados também impressionam pelo motivo inverso em relação aos grandes bazares de Basileia, Londres, Paris, Nova York e Miami, até mesmo São Paulo. 

Enquanto obras nessas outras cidades podem passar bem fácil da casa de US$ 1 milhão em valor e chegar a uma média de US$ 300 mil, as obras da Contemporary Istanbul não costumam passar de US$ 10 mil, com exceções na faixa dos US$ 100 mil, o que dá a entender que o mercado ainda é jovem, com espaço para uma expansão no futuro.

Isso, é claro, se o país não voltar ao caos. Por enquanto, parece reinar uma ponta de esperança, e os artistas turcos mais jovens até flertam com trabalhos que abraçam as cores e deixam de falar de política, para o bem ou para o mal.

O jornalista viajou a convite da Contemporary Istanbul

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