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Cinema

Filme dá voz a mulheres torturadas pela ditadura mas naufraga no didatismo

Em meio a onda de saudosismo à ditadura, documentário 'Torre das Donzelas' é obra bem-vinda

Rubens Valente

Torre das Donzelas

  • Quando Estreia nesta quinta (19)
  • Classificação 12 anos
  • Produção Brasil, 2019
  • Direção Susanna Lira

As crises políticas que concorreram para a eleição presidencial de Jair Bolsonaro em 2018 incluem uma crise de memória. Boa parte de seus apoiadores se diz saudosa da ditadura militar, mas era muito jovem ou nem havia nascido na época. A informação que receberam sobre o período foi parcial, impressionista, de familiares ou conhecidos que só retiveram uma parte da história, a que mais lhes agradou. 

Além disso, o que é ainda pior, parcela dos eleitores parece doutrinada por obras revisionistas que fraudam a história, como o recente “1964: O Brasil Entre Armas e Livros”, da produtora chamada sintomaticamente de Brasil Paralelo.

Nesse cenário, o documentário “Torre das Donzelas” é muito bem-vindo. Ver esse grupo de bravas mulheres descrevendo como foram barbaramente torturadas por homens covardes —não havia torturadoras mulheres, lembra uma entrevistada a certa altura— é extremamente difícil, mas nunca será demais. 

Para as novas gerações, é imprescindível. São provas vivas de um tempo em que os militares do Brasil sequestraram e massacraram seu próprio povo. Ficamos sabendo de detalhes sórdidos, como a aplicação forçada de uma substância em mulheres grávidas para que parassem de lactar. Ou um diálogo que poderia ter saído direto das redes sociais de 2019. Torturador: “Você conhece os direitos humanos da ONU?”. Torturada: “Sim”. Torturador: “Esquece”.

O multipremiado filme de Susanna Lira, vencedor do Festival do Rio de 2018 na categoria de documentário em longa-metragem, se justifica pela força dos depoimentos. 

Infelizmente, ela não foi acompanhada de nenhum esforço didático e de nenhuma organização cronológica.

O espectador é jogado de um testemunho a outro, de um ano a outro, de um tema a outro sem qualquer explicação, referência ou ajuda.

Para complicar, o filme optou por só identificar nominalmente as entrevistadas no final. O resultado foi criar uma distância do espectador. A plateia pode passar o tempo todo se emocionando com as personagens, mas nunca verdadeiramente se aproxima das suas trajetórias de vida.

Não se sabe ao certo do que aquelas jovens foram acusadas, se é que foram, por que foram presas ou o papel de cada uma na esquerda. Só há pedaços de informação, captados apenas por iniciados.

O documentário decidiu não explicar as engrenagens que levaram as mulheres à “Torre das Donzelas” e, assim, pouco iluminou o período. Os realizadores tinham uma matéria-prima extraordinária —as sobreviventes—, mas optaram por uma narrativa confusa e às vezes cansativa, cometendo o deslize de pregar para convertidos.

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