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Cinema

Filme fica no meio do caminho entre estado bruto e lapidação precisa

Paraibano 'Ambiente Familiar' ganha as telas com a raridade e o charme de uma turmalina e é um feito a ser comemorado

Ambiente familiar

  • Quando Estreia na quinta (26)
  • Elenco Marcelia Cartaxo, Zezita Matos, Beto Quirinoz
  • Produção Brasil, 2019
  • Direção Torquato Joel

Primeiro longa de Torquato Joel, "Ambiente Familiar" traz, de maneira ousada, a vida de três homens. Com histórias familiares marcadas por tragédia, abandono e desamparo, Alex (Alex Oliveira), Diógenes (Diógenes Duque) e Fagner (Fagner Costa) vivem juntos. Não têm laços de consanguinidade nem são parceiros de uma relação amorosa. Mas, mais do que dividirem a casa, o trio constitui uma nova irmandade e, cada um a seu tempo, revive tristezas e alegrias de sua infância.

O filme destaca-se pela liberdade narrativa e pelo apuro visual, característicos da obra do festejado curta-metragista paraibano que completa 62 anos. Mas se os filmes mais emblemáticos do cineasta, como "Passadouro" (1999), concentravam poesia em poucos minutos, aqui esse lirismo é distendido, diluído, e a intriga se esgarça.

"Ambiente Familiar" se reivindica na fronteira entre documentário e ficção. Atores e personagens de fato compartilham nome, recordações, traumas e uma relação de intimidade com a paisagem —o longa foi rodado entre João Pessoa e localidades do litoral e do interior paraibano. Provavelmente em função da ancoragem fiel à trajetória real dos protagonistas, no entanto, os personagens não chegam a apresentar reviravoltas importantes nem a abandonar o lugar de vítimas de histórias familiares forçosamente traumáticas.

O ponto forte parece ser mesmo a coragem com que o filme se lança na experimentação. Observa-se, por exemplo, um olhar detido sobre objetos e fragmentos do corpo, planos que se sustentam por longos minutos em enquadramentos de pouca iluminação e demoradas sequências de lembranças que talvez sejam menos narrativas do que afetivas e sensoriais.

A presença da atriz Marcélia Cartaxo, na pele de Nena, mãe de um dos garotos, enche a tela. Ela passa da alegria plena à tristeza desgraçada, e emociona por sua performance. O elenco infantil também impressiona. Já o trio de protagonistas, formado por não-atores, por vezes perde a cumplicidade do espectador. Em alguns momentos o filme beira a autocomplacência, como na sequência final, em que o canto não chega a comover nem é fonte de humor.

"Ambiente Familiar" ganha as telas com a raridade e o charme de uma turmalina. É um feito a ser comemorado, embora, infelizmente, o filme fique no meio do caminho entre o estado bruto e a lapidação precisa.

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