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Cinema

Filme segue romances de formação e tem nazismo como pano de fundo

Ao evocar passado, 'A Tabacaria' traz sensação de que estamos repetindo um pesadelo do qual não será possível acordar

A Tabacaria

  • Quando Estreia nesta quinta (5)
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Simon Morzé, Bruno Ganz, Johannes Krisch, Emma Drogunova
  • Produção Áustria/Alemanha, 2018
  • Direção Nikolaus Leytner

Como oferecer um ponto de vista renovado ao tema tão desgastado da ascensão do nazismo? “A Tabacaria” consegue ir além da reconstituição visual do passado, fundamento de todo filme histórico, ao escolher como fio condutor a passagem para a vida adulta de um adolescente na Viena dos anos 1930.

Adaptada de um best-seller do autor austríaco Robert Seethaler, a narrativa segue o molde dos romances de formação para representar transformações que não afetam somente o protagonista.

Franz transita da vida rural ao anonimato da metrópole, passa de jovem virgem aos desencantos da paixão e testemunha a desordem social crescente quando a violência se torna normal.

Estas faces se complementam do mesmo modo que o fim da inocência anuncia a irrupção da barbárie, forçando Franz a enxergar além de seu castelo de purezas.

Ações de imergir, respirar e inalar se destacam por meio de cenas que têm a textura dos sonhos. Em contraponto, os instantes oníricos e os devaneios do protagonista interferem na representação realista, quebrando a aparente objetividade das imagens.

Esse material rico em sentidos também serve para preparar a entrada em cena de um médico especialista em consertar a confusão mental, o doutor Sigmund Freud em pessoa.

A participação poderia ser só anedótica se não fosse a presença de Bruno Ganz em um de seus últimos papéis. O ator, que já foi capaz de afastar Hitler da caricatura, faz da voz o eixo de sua composição, transferindo Freud do campo da escuta para o reino da fala, fazendo-o mais humano e fragilizado e menos totêmico.

O psicanalítico perturba um pouco a dinâmica do filme, que cede à tentação de sobrecarregar uma história forte com sequências mais adequadas como exemplos em manuais de como interpretar sonhos.

São deslizes que não comprometem, pois “A Tabacaria” consegue focalizar no principal, o passado, sem ficar dependente dele. É daí que ele traz a sensação muito inquietante de que estamos, hoje, repetindo um pesadelo do qual não será possível acordar.

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